Guiné Março 67 - Autodefesa
Autodefesa Sob o título indicado, e o subtítulo de "Autodefesa", o presente documentário pretende dar testemunho do que era a autodefesa das populações da Guiné em 1967. É, evidentemente, um filme de propaganda que utiliza cenas e imagens preparadas, e mistura modalidades de acção muito diferentes, com meias-verdades, e com grandes tiradas patrióticas, como era de uso no tempo. No essencial, afasta-se muito da realidade que refere. O início do documentário em causa passa-se no OLOSSATO, na região de FARIM, no Norte da Guiné. Os elementos da população que são transportados na coluna militar, viviam naquela povoação onde se encontrava uma força militar permanente. Ao chegarem ao local de destino, apeiam das viaturas, dirigem-se às terras e iniciam os trabalhos, enquanto os militares portugueses assumem posições de defesa para os protegerem enquanto ali se encontrassem. O descrito diz apenas respeito, portanto, à modalidade de acção de apoio às populações, e que só se aplicava quando estas estavam junto das unidades militares. Após a filmagem da população a trabalhar a terra, é encenado um ataque de guerrilheiros do PAIGC; como é evidente, quando na realidade havia tiros os trabalhadores não se deitavam no chão em campo aberto como se mostra, antes corriam a abrigar-se em locais mais adequados! Ao contrário do que é afirmado, no ano em causa as populações não escolhiam onde queriam fixar-se, nem cultivavam o que queriam, nem quando, nem onde queriam. A autodefesa das populações era uma modalidade bem diferente e que consistia em preparar povoações para se defenderem, para o que recebiam armas e a devida instrução para as manusearem. Tal só era possível, evidentemente, em zonas onde a maioria dos seus elementos era, ainda, leal à administração portuguesa, ou seja em zonas onde viviam as etnias felupes, fulas e mandingas, e que eram as áreas da fronteira norte com a República do Senegal. Conforme o conceito, estas povoações defendiam-se autonomamente quando eram atacadas por pequenos grupos de guerrilheiros, em transito normalmente, e tendo a garantia de que a unidades militar mais próxima acorreria sempre que necessário. Logo o PAIGC se apercebeu do perigo que corria a sua estratégia, se as populações que pretendia conquistar, enfrentavam, antes, os guerrilheiros. Tanto mais que as etnias em causa faziam alguma resistência à luta de libertação. Decidiram por isso atacar com a maior violência esses aldeamentos em autodefesa, o que teve como consequência a fuga de muita população para o Senegal. Exactamente o contrário do que é afirmado no documentário em apreço! Como consequência do que atrás se refere, as populações isoladas optaram por uma das alternativas: ou fugiam e procuravam refúgio no Senegal, ou se movimentavam para onde houvesse unidades militares portuguesas onde lhes era garantida protecção e segurança. Em OLOSSATO, e noutras povoações onde existissem unidades militares, era normal estas ajudarem a instalar as populações que para ali fugiam de locais mais isolados, sujeitos, por isso, a acções do PAIGC. Nessas situações, como se verifica nas imagens, os militares portugueses auxiliavam na construção de casas e, especialmente, de abrigos onde todos pusessem estar em segurança na eventualidade de um ataque. O documentário passa depois a mostrar imagens de CUNTIMA, a N do OLOSSATO, mesmo sobre a fronteira com o Senegal. Para além da mensagem de um militar, em nome de todos, a comunicar que "está tudo bem", é documentada a acção social que as unidades militares portuguesas sempre fizeram bem, especialmente quando existia médico, no apoio sanitário às populações, às locais e também às que vinham do outro lado da fronteira, do Senegal apenas, e não da República da Guiné-Conacri como é afirmado. São apresentadas imagens de BURUNTUMA na extremidade NE da Guiné, em dia de festa local, e em que também é mostrado o pagamento pelo 1º sargento da unidade militar ali instalada a elementos da população, por serviços prestados. Curiosamente está presente o régulo fardado, o que, nessa época, acontecia raramente na Guiné! Seguem-se imagens de SANGONHÁ (na fronteira Sul com a Guiné-Conhacri), nessa altura já com intensa actividade operacional, mas onde o militar, que como de costume fala em nome de todos, diz que aquela "é uma terra pacífica (!!!) onde todos se encontram bem dispostos e sem problemas para resolver". Finalmente são mostradas imagens de ALDEIA FORMOSA, a sul do Rio Corubal, também com um militar a declarar "que estão bem, e aptos para tudo o que for preciso". Para concluir, e de acordo com o que foi transmitindo ao longo da exposição, com as mensagens evidentemente pré preparadas dos militares entrevistados, uma frase espantosa a condizer com o teor geral do documentário: "Sentinelas vigilantes, os guineenses estão prontos a dar a vida para não perderem a condição de portugueses. A seus filhos ensinaram a entoar o hino nacional." E termina o documentário com o hino português cantado por um pequeno guineense.

Os comentários aos diferentes Documentários foram efectuados em colaboração com a Associação 25 de Abril, e são da responsabilidade de:
Coronel de Infantaria - José Aparício
Coronel de Artilharia – Eduardo Abreu
Coronel Piloto aviador – Villalobos Filipe
Capitão-de-mar-e-guerra – Pedro Lauret
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