Ana Ferraz da Rosa

CARTAS DE DOROTHY BRANCO - 2



Querides Amigues:

Cá me encontre de novo a escrevere esta vossa carta. Saibam que estou bem ainda que morta de saudades dessa terra feiticeira que nos faz trabalhare coma só os burros de cá fazem que aí não é vergonha e é para nosse bem e conforte porque quande agente chega aqui toda agente diz que estamos mais novos e na dizem mentira nenhuma.

Já se acabare as nossas festas todas de verão ái que pena. O verão também se foi imbora de repente e na tarda nada vem os santos. Este dia de festa agora passa-se nos impregos porque é precise endireitare o país e na custa tanto porque não á toiradas nem bode de leite. É por causa da crise inconómica. Tem que se cortare em tude o que for inzajeres. Parece que o dia de todos os santos era um inzajere de santos e muitas pessouas compravam mais felores de que aquile que pudiam só para irem para além dos demais porque avia gente que passava o dia a mexircar as campas uns dos outros. Já na se vê ninguém a vender flores neste dia. Agora andam é a vendere focses daqueles de prinder na cabeça porque fica escure depressa e é para as pessoas na se enganarem quande andarem á procura da ultima morada dos seus e ficarem com as mãos livres quando se quiserem benzer. Este ane por sorte o pão por Deus calhou num domingue e já temes a nossa casa infeitada como se faz ai cum teias de aranha e esqueletes. Na descansei inquante na pus duas aboberas cum luzes a saí dos olhos á varanda. O pão por Deus tem inveluíde muito aqui. Outrora via-se era uns pequenos cum umas saquinhas a pedire pelas ruas. Depois começaram a ver-se as crianças aos ranches com umas sacas de retalhes muito bemfeitas e a dizerem uma cantilhena que eu cá nunca me lembra de ter ouvido semelhante coisa mas era por causa de manter as nossas tradições. Agora os pequenes vão mascaradas como no carnavale mas as fantasias é como os fantasmas daí. Isto por cá anda a invuluire tante que eu vou-te contar. Outre dia passei por uma rutunda que é feita em forma de triangule já era de noite e pareceu-me ver um esquelete humano preso num pau a abanar no ar mas como as luzes da nossa terra ficaram fundidas todas ao mesmo tempo uma sim outra não fiquei na incerteza se estava a ver bem. Quando virei outra vez para trás afirmei-me melhor. Não era só um esquelete humane que estava a enfeitare o triangule. Tinha também cruzes espetadas no chão e uma cabeça de pessoa a saire de debaixe de um monte de terra. Estava linde! O trabalhe caquilhe deve ter dade! Há pessoas que nasceram mesme foi para enfeitare e enfeitam tude com muito goste. Pois. Assim é que deve ser.

Estou a escreverte sentada numa esplanada da nossa bela Praia mas tenho que fugir daqui depressa porque o cheire que anda no ar estáme a dar voltas ao estomague. Ninguem sabe que cheire é este nem donde vem. Já mandaram vir especialistas de cheires mas por enquante está tudo debaixe do segrede da investigação. Uns dizem que é um cheire natural na se pode fazer nada e talvez vai atrair o turismo eculogico. Outros estam se temendo que sejam caldeiras de enxofre que se estão a abrire algures na terra mas isso tambem seria bom porque podiamos abrir buracos no chão e fazer aí o nosso Cosido á Praia. Na sei. Por mim a culpa diste tudo é das pás que puserem a girare na serra do cume e que trazem a toque de vente este cheire para cima da nossa bela Praia. Deviam era tirar as pás e estava tude resolvide.

Beijos e abraços. Até cualquer dia tua amiga

Dorothy Branco