Cláudia Cardoso

A emergência humana

Greta Thunberg é a adolescente mais mediatizada do mundo. Pelas piores razões. Porque como ela afirma “a nossa casa está a arder”. O difícil é ser indiferente a este alerta. Que dura há um ano. Desde agosto faltou às aulas para protestar pelo clima em frente ao Parlamento sueco. A “sua” manifestação "Fridays For Future" tornou-se um movimento mundial e fez indicar o seu nome para candidata ao Prémio Nobel da Paz. Greta participou esta semana do Fórum da ONU sobre Alterações Climáticas, e discursou perante líderes mundiais, que a revelam irredutível na sua missão. Porém, a par disso, a sua postura, curto passado, genética e genealogia tem sido vasculhados por um jornalismo mais preocupado com traços de personalidade do que com a grave situação climática que enfrentamos. Esta adolescente fez uma escolha. Difícil e corajosa. Porém, os adultos que ela condena optam por ouvir sempre a parte que mais lhes interessa. E a que menos interessa ao mundo. Tenho assistido, desolada confesso, à forma como tem sido atacada por todos os meios e nas mais variadas plataformas. Alguma coisa de muito negra atravessa a mente destes adultos, milhares, que atacam ferozmente Greta Thunberg. A preocupação com o seu mediatismo é inédita. Talvez se estes adultos tivessem prestado a devida atenção, e feitas as necessárias intervenções, não precisássemos hoje da intervenção de Greta nem do seu discurso contundente. Alguém falhou pelo caminho ao negar evidencias científicas. Se estas tivessem sido atendidas, se o ouvido dos adultos e dos decisores políticos se tivesse encostado para ouvir a pulsação da terra, talvez pudéssemos prescindir do discurso desta jovem. Não foi assim. Agora resta-nos aplaudir a sua coragem. Ao invés, a chacota, as insinuações de psicopatia e de manipulação por movimentos diversos, ronda e atinge uma miúda de 16 anos em cheio. Chamam-lhe nomes, muitos, dos feios. E vejo aquela miúda, sentada ao lado dos líderes mundiais, e não consigo evitar pensar como reagiriam muitos destes adultos se estes nomes fossem chamados aos seus filhos. Em que espécie de bárbaros a espécie humana se vem tornando. Não há apenas uma emergência climática. Há uma evidente emergência humana também.
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