Cláudia Cardoso

As virtudes do medo

A vida não aceita que se lhe passe o corretor. Não há delete possível, só desperdício. Tive um grande amigo de faculdade que fazia questão de sair sempre na noite imediatamente antes às frequências. E que me tentava explicar que passar uma tarde no cinema, em vez de estudar, poderia ser verdadeiramente retemperador. Nunca compreendi o seu ponto de vista. E sempre fui incapaz de o imitar. Tinha medo das consequências. E o medo pode ser um importante acautelador, mas não nos deixa, a maior parte das vezes, viver a plenitude das possibilidades que a vida nos oferece. Ter medo serve para nos proteger do perigo, mas resguarda-nos simultaneamente da vida. A única que temos, à partida. Quem opta sempre por ficar na beira da praia sente a sensação de segurança que tomar pé lhe dá, mas desconhece, em definitivo, a sensação que nadar em mar alto confere. O medo mora dentro de cada um. Na imaginária sombra do tubarão à ilharga, e na escuridão infinita quando se olha para baixo. O mar alto tem profundezas demasiado escuras, perigos muito desconhecidos, e bichos por classificar e, no entanto, é essencialmente aqui que mora o seu encanto. Quem escolhe a terra firme perde o céu espelhado do abismo. Quem opta pela placidez das lagoas ignora o sabor de navegar no mar aberto. Tem água à mesma, mas escolhe colhê-la noutra versão. Os mares sem ondas também podem ter tubarões. O cenário bucólico, passadas umas horas, é apenas isso, uma bela natureza morta. E, no meio do sossego, o impacto da mínima refega sobressalta e intimida. Quem prefere o olho do furacão sabe que a placidez é sempre ilusória. E que a vida tem os seus abismos por mais que os tentemos contornar. Se o Rui ainda vivesse dir-lhe-ia que a vida me tem ensinado a dar-lhe razão. A não dar sempre a resposta mais fácil aos problemas. A não escolher sempre o caminho mais óbvio, por mais tentador que possa, à primeira vista, parecer.

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