Cláudia Cardoso

Bom som açoriano

A música produzida nos Açores sempre teve um cunho particular e muito nosso que, mesmo que acompanhada duma dose de melancolia, inova e transgride. A arte nasce, muitas vezes, da transgressão. Velha aliada da criatividade. O panorama musical regional continua a contar com os velhos mestres da toada, que se tem mantido na senda da criação e da divulgação da música feita nos Açores, mas não deixa de se revelar surpreendente o aparecimento de grupos novos, com sonoridades distintas. Dos músicos dos anos 80 subsistem, com vigor, Aníbal Raposo, Luís Bettencourt, Luís Gil Bettencourt, Bruno Walter, entre outros. E nas gerações novas impõem-se novos grupos, captando franjas distintas de gosto musical, capazes de configurarem a vitalidade musical açoriana. Falo do surgimento de Louco Mau, uma banda com músicos experientes, mas num novo registo, delicioso por sinal; falo de diversos grupos ligados ao fado e aos seus cambiantes; falo também do jazz, para o qual o contributo do Festival AngraJazz não pode ser ignorado. E chego aos sons inebriantes de João da ilha. No dia 9 de julho realizou-se o concerto “Quatro estações num dia” no auditório da Biblioteca de Angra, que possibilitou ao público presente uma viagem pela ambiência açoriana de vivenciar as quatro estações num só dia. Acompanhado pelos músicos Paulo Cunha no contrabaixo, Evandro Meneses na guitarra e Nuno Pinheiro na bateria, conduziu os presentes a uma viagem emotiva pelo coração de um dia açoriano típico. Uma experiência verdadeiramente imersiva, acompanhada do improviso de sons familiares, e da voz cândida de João Leonardo. À qual se juntou um acompanhamento musical de excelência. Claro que João da ilha não é um novato nessas andanças, com 3 CD e 2 EP lançados, tem muitos anos de estrada, mas o que se me afigura notável é esse contínuo registo de reinvenção e o poder do quadro que nos capta a atenção, e que, ao mesmo tempo, que nos embala, também nos avassala. Há neste concerto um registo de novidade que nos é, contraditoriamente, familiar. Mas como não posso anexar, por ora, som a esta crónica, talvez seja mesmo avisado sugerir-vos que ouçam, e experienciem as sensações que o público presente na Biblioteca teve oportunidade de disfrutar.

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