Cláudia Cardoso

Da cor dos ossos

Trump assegurou, recentemente, que não tem um único osso racista no seu corpo. Uma rápida passagem pelo seu histórico de declarações permite vislumbrar demasiados episódios controversos, para se crer nesta síntese anatómica. Na génese dos EUA, a casta dominante, descendente dos colonizadores europeus, tratou de assegurar todos os privilégios para si, por oposição aos demais grupos étnicos. Primeiro foram-se emancipando os imigrantes europeus não protestantes e, posteriormente, outros grupos étnicos foram conquistando o seu espaço. A custo e a pulso. É que a deslocalização colonizadora exacerbou, em muitos casos, os defeitos, e apurou-os ao nível do inaceitável. Veja-se o caso do Brasil. Hoje, é comum encontrarem-se afro-americanos, latinos, judeus, ou asiáticos em todo o tipo de profissões e cargos públicos. Mas, os EUA são um país jovem. Muito marcado pelos conflitos da década de 60, pelo movimento dos direitos civis, ou pela Guerra Civil Americana, que fez da questão racial tema central. O ódio racial ressuscitado por Trump tem um propósito claro. E é eleitoral. Lança a pedra para, logo de seguida, esconder a mão. A visada desta vez foi a deputada Ilhan Omar, democrata do Minnesota, cidadã americana, nascida na Somália, e uma das quatro congressistas a quem o presidente sugeriu no domingo que voltassem para “os lugares infestados pelo crime de onde vieram”. Diante da indignação, Trump tentou manter distância do seu coro fanático. Tarde demais. A multidão limitou-se a seguir a voz do dono. Na verdade estas provocações racistas são a chave para a sua reeleição. O palmarés do presidente Trump em matéria de racismo é demasiado longo para caber numa crónica desta dimensão, mas facilmente consultável nas mais diversas fontes. Apesar das alterações políticas e legislativas que decorreram, a questão racial está longe de estar arrumada no sótão da curta história dos EUA, e Trump aproveitou-se disso. Ao contrário do que se pensa não é um político desajeitado, que comunica irrefletidamente. Trump já está em campanha eleitoral. Este episódio apenas fez a sua popularidade aumentar 5% junto do eleitorado republicano. Esta é a guerra de Trump que transporta para o us and them. E é nesta cisão que ele se insufla.