Cláudia Cardoso

Dar o dito pelo não dito

O parlamento dos Açores, afeito à sua nova composição, aprovou o Plano e o Orçamento para 2022. Porém, não sem suficiente balbúrdia e contestação. Dir-se-á que a matemática da votação é infalível, mas, como se sabe, a matemática é um resultado que pode ser sempre alterado, mudando as variáveis. A atual composição governativa assenta num acordo assinado entre três partidos e suportado por dois acordos de incidência parlamentar. Os jogos que, na última semana, estiveram na base deste desfecho fazem deste orçamento muitas coisas, mas nenhuma delas corresponde à visão de um dos partidos de governo. Sobretudo à visão do maior partido que o suporta. As cedências que tiveram de ser feitas não seriam nada de extraordinário, não fosse o facto de assentarem em programas que conflituam com a base identitária autonómica do PSD. A triste visão de assistir ao líder nacional do CHEGA a encenar a retirada do suporte ao Governo Regional dos Açores, só foi suplantada pela malograda conferência de imprensa do deputado único do Chega a invocar Deus, para justificar os pecados que se preparava para obrigar José Manuel Bolieiro a cometer. Nuno Barata também fez o seu papel de defesa da redução do endividamento, e mesmo sem atingir os objetivos traçados, foi bem-sucedido. Carlos Furtado, o deputado independente, anunciou um voto contra por discordar da aprovação das propostas apresentadas pelo deputado do CHEGA, mas claudicou na arena política. A dramatização dos últimos 15 dias não foi, porém, inútil. Na senda do voto favorável o orçamento tudo acatou, até mesmo as medidas estapafúrdias do Deputado Pacheco. Ou melhor, assim parece ter sido, porque o Orçamento passou. Mas, a que custou o fez, descobrirão os açorianos no decurso do próximo ano. Porque não é o programa eleitoral do PSD que se vê vertido e aprovado neste orçamento, mas uma manta de cedências, cuja extensão está ainda por quantificar. E os açorianos permanecem atónitos perante o manancial de cedências, de anúncios de votos contra, de rasgar de vestes públicas que redundaram em posterior aprovação. De gente que não hesita em dar o dito pelo não dito. A nossa autonomia suspensa pelas decisões arbitrárias de líderes de extrema-direita a anunciarem, à distância, a retirada de apoio, para, no dia seguinte, mudarem conforme o vento. Seguramente, muito poucos açorianos se reveem nisso. E outros tantos o abominarão. O certo, afinal, é que nenhum açoriano, efetivamente, o merece.

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