Cláudia Cardoso

David e Golias

Passada uma semana sobre o início da invasão russa na Ucrânia há várias conclusões a retirar. Desde logo que o suposto plano de Vladimir Putin de um ataque cirúrgico, rápido, sem entraves e bem-sucedido falhou. E falhou por diversas razões. O menosprezo do adversário, a assunção de que o poderio militar seria suficiente para esmagar o inimigo, e a inversão da habitual hipocrisia europeia quando envolve países dominadores do ponto de vista energético e agroalimentar. Nada disto sucedeu. As premissas com que contava Putin foram sujeitas a maior resistência do que aquela com que estimava. Desde logo, a resistência do povo ucraniano, galvanizado pelo ódio ao invasor e pelo orgulho nacional. Contrastando com a narrativa de Putin de que Ucrânia não constitui uma nação de facto. Depois, a surpresa da postura heroica de Zelensky. O presidente ucraniano revelou coragem e determinação na defesa do seu povo. E revelou sobretudo que, em pleno século XXI, os pequenos gestos de lutar ao lado do seu povo e de se apresentar vestido de camuflado como mais um ucraniano, podem fazer a diferença na imagem que projeta para o mundo. Enquanto Putin reúne com os seus numa mesa extensa, de fato e gravata e isolado. As imagens falam por si. E a guerra hoje é escrutinada ao minuto. A heroicidade ucraniana estende-se aos civis. Que barram com o corpo colunas militares russas, que enfrentam os russos antes de serem fuzilados. Há nesta invasão o desvario de um homem cada vez mais só, que tem o sonho da recuperação das antigas fronteiras da URSS. O mundo atónito assistiu a este despautério. E deve repensar a sua forma de intervenção neste. As sanções que se fazem cair sobre a Rússia vão fazer tremer a mão do tirano, mas serão suficientes para o impedir de continuar a avançar sobre a população ucraniana indefesa? Não é possível determinar, neste momento, a duração da guerra. Mas, o que fica para a história é que, no final de uma semana, o gigantismo militar da Rússia não foi capaz de esmagar a Ucrânia. Qual David e Golias.

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