Cláudia Cardoso

Do abuso

A recente polémica com as denúncias de assédio sexual a atrizes de Hollywood continua a fazer render. Muitas mulheres do mundo do espetáculo resolveram subitamente dar voz a este flagelo. E ainda bem. Fica por se saber porque só agora o fizeram. Porém, esta denúncia já fez despertar o reverso da medalha com uma carta aberta, encabeçada por Catherine Deneuve, em que se argumenta que a violação é crime, mas o assédio persistente não. E que as mulheres têm o direito de serem importunadas. Acontece que se há permissão e anuência não se trata de assédio, porque há consentimento. Por aqui cai a falência desta argumentação. Esta reação revela como a cada passo no sentido da igualdade as sentinelas da tradição estão atentas. Pelo facto de sempre ter sido assim não significa que deva continuar a ser. Há más tradições. O assédio sexual é uma delas. Que impede o mundo de ser civilizado. E a humanidade de progredir. Por mais provada que esteja a teoria da igualdade de capacidades de ambos os sexos no exercício de todas as funções. Por isso me parece aterrador serem mulheres a arranjarem boas desculpas para um comportamento masculino errado, por mais tradicional que seja. Como se não se diferenciasse um piropo de perseguição, ou um galanteio generoso da coação psicológica. Que está associado a homens, sobretudo em posições de poder. Na recente cerimónia dos globos de ouro Oprah Winfrey colocou o dedo numa ferida que continua aberta, sobretudo porque o laxismo a deixou persistir. A incúria. O achar que nada se pode fazer. Muitas vezes aceite pelas próprias mulheres como irremediável. Há excessos nesta denúncia? Haverá seguramente. Mas querer manter um status quo ultrapassado e silencioso parece-me bem mais grave. No local de trabalho, diariamente, milhares de pessoas em todo o mundo, na esmagadora maioria mulheres, tem que lidar com esta monstruosidade. Pôr um fim a isto não é uma questão feminista. É uma questão moral. E de inegável justiça.

Claudia.cardoso9@gmail.com