Cláudia Cardoso

Heróis anónimos

Não me venham dizer que não existem heróis. Quando passo por eles na rua quase todos os dias. O anonimato não mata os heróis, só impede que o mundo dissemine boas práticas. Mesmo invisíveis continuam a existir. A Armanda que trata dos pais acamados é uma heroína. Continuo a tentar perceber porque razão só se adulam os heróis de pedestal, sujeitos ao excremento das pombas e ao alheamento dos homens. O jovem que resgatou a criança que caiu numa linha de metro não quer que lhe chamem herói. Mas continua a sê-lo, apesar disso. Os homens da marinha que resgatam crianças a bordo de botes precários nas águas agitadas do Mediterrâneo também o são. Mesmo que apenas cumpram o seu dever. E os médicos da AMI que tratam centenas de doentes em condições precárias, arriscando a vida e a sanidade mental diariamente. Isto é um herói. Que vive. De pé. Sem câmeras de televisão, mas com coragem. Os heróis não têm que morrer apenas na guerra. Nem ter patentes militares. Os heróis andam pelo meio de nós. Nos serviços públicos quando vestem a camisola. Nos hospitais quando a sua dedicação supera o ordenado. Nas corporações de bombeiros a combaterem a incúria do país. O herói vive a sua vida plenamente. Cumpre-a no gesto. Mesmo que desconheça o desfecho. O herói redime o que resta duma humanidade à deriva. Que se fez devorar pela imagem refletida na foto de perfil. Narcisos tardios de um tempo umbilical. Somos o produto duma civilização menor. Emudecidos perante a beleza da natureza. Alheios ao valor da palavra, alheados dos valores fundamentais, cultivamos o desconhecimento. Pior, a indiferença. Se o outro cai, que se levante. Não damos a mão, nem enterramos com a ponta do pé. Esquecemos a queda dois passos depois. Há uns tempos assisti a um jovem casal que se levantou quando entrou um idoso no autocarro. Os dois, em simultâneo. O idoso recusou o assento. Mas o gesto foi lindo. E redescobri ali a esperança na humanidade.

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