Cláudia Cardoso

Morrer devagar

Maria era uma mulher absolutamente vulgar. Sem nenhum traço distintivo que a demarcasse das demais. Havia escolhido servir um marido. Como se serve um senhor. As épocas passavam e os traços de comportamento permaneciam iguais. Gesto após gesto, a vida sedimentava-se nas pequenas rotinas. Alimentar os filhos, lavá-los, vesti-los e penteá-los, para depois os conduzir ao autocarro que os levaria à escola. Consciente de que o mais velho deles já estudara mais do que ela. Ciente de que, de todos, era a mais dependente. E que a relação do casal se tratava de uma simples transação comercial. Com primeiro e segundo outorgante em situações de manifesta diferença de facto. Queria Maria poder ter sonhado ir à escola, como as outras raparigas da sua idade. Mas o pai deixara absolutamente claro que o estudo era areia demais para a sua mente pequena. E de que aos seus irmãos caberia o exclusivo da capacidade para os livros. Maria aprendeu a ler, e antes que a frequência da escola lhe trouxesse outros e novos entusiasmos, o pai tratou de lhe quebrar as asas. Contrafeita acedeu. De nada lhe valeram os apelos à mãe. E o choro contido pelos cantos. Destinada a casar, e vendo nesta a sua única saída de casa, foi por ela que entrou. O marido via o mundo por uns binóculos parecidos com os do pai, e o século XXI não significava para ele nenhuma mudança, por isso restou-lhe depositar nos filhos as esperanças que o seu coração acalentara durante tanto tempo. E concretizar, por via deles, os sonhos que lhe haviam sido, sucessivamente, negados. Mas, os filhos não acumulavam essa experiência de vida e não viam na escola mais do que uma prisão. Não reconheciam nos livros uma porta de evasão, e não pressentiam no conhecimento qualquer tipo de poder. Preferiam a sequência da rotina da vida rural, e o conforto do desconhecimento. Saber apenas aquilo que lhes pudesse servir no imediato. E desconhecer tudo o resto. A força de um poema, o poder do conhecimento do passado, a liberdade de pensar sem apeadeiros. Neles ela não se pôde, portanto, encontrar. E regressou a si, mais uma vez, tolhida. Enredada numa teia de pequenos gestos, de que era certo o desfecho, e nula a criatividade. Soube hoje que soçobrou a uma vida de dificuldades e partiu de mansinho. Conformada, finalmente, pela libertadora morte.