Cláudia Cardoso

Novo ano, velhas questões

O novo ano trouxe consigo velhos problemas. Desde logo o da gestão da pandemia e dos seus imponderáveis. Pelas ilhas grassa a contaminação massiva, depois de um natal e fim de anos folgados. Os números diários não dão tréguas, pior seria se os recuperados não o fossem ao fim de 5 dias. Há lições a aprender e ilações a tirar. Ainda este mês os portugueses irão a eleições, enchendo-se janeiro de debates entre candidatos. Alguns deles a roçar a mais densa miséria, revelando o país que somos. Mediáticos, de curta duração, pondo em pé de igualdade forças antidemocráticas e partidos históricos, normalizando a ignomínia, comentadores esmagadoramente afetos à direita a fazerem o favor de pontuar, e pensar, pelos portugueses. Mas, como ainda somos um país que pensa pouco? Não é difícil de explicar. O atavismo nacional tem causas. Uma delas o tempo que distamos da ditadura. Apenas 48 anos. Um país saudoso de Salazar, misógino, machista, racista, que despreza o diferente, e encontra eco na realidade para a imagem das revistas de bordados e lavores. Com números vergonhosos de violência doméstica, maus tratos infantis, discriminação salarial associada ao género. Num país em que o livro, censurado pelo Estado Novo, teve pouco espaço de manobra, porque a chegada da liberdade é posterior à chegada do sinal televisivo. O povo iletrado e analfabeto transitou da proibição de ler para a panaceia do ecrã. E a dose diária de tela é muito mais fácil de engolir, e de digestão fácil. Um scroll breve no comado mostra a horas nobres a fotografia. Programas estupidificantes sucedem-se, já quase sem exceção (salva-se a 2), e ensinam-nos que os cantores pimbas, ladeados de bailarinas ululantes, são os grandes mentores espirituais deste país. Um país que ruge apenas na mesa do café, e se acarneira no momento propício a dizer o que pensa. É este o país que vai a votos. O que sabe mais sobre o Bruno de Carvalho do que sobre Rui Rio. Neste momento o CDS arrisca-se a não eleger nenhum deputado. O Chega tem a mesma votação que o BE. E o país gastou milhões para clarificar quem será primeiro ministro quando já todos o sabemos. Só resta saber se conseguirá governar sozinho.

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