Cláudia Cardoso

O ano normal

Há uma anormalidade brutal neste suposto regresso à normalidade. É como se tivéssemos de entrar num tempo asséptico e inodoro. E fingir que, antes disto, não tivémos vida e ela não era assim tão diferente, e nós nem nos lembramos dela tão pouco. Custa afinal bastante. A suposta normalidade, a que tivemos de regressar, é muito anormal. E bizarra. Regressamos ao espaço público e sentimo-nos como o elefante na loja de porcelana. O mínimo movimento deitará tudo a perder. Limpamo-nos e desinfetamo-nos e os aviões aterram cheios de turistas sabe-se-lá se infetados. Trazemos a anormalidade estampada no rosto. Nas ruas das cidades pessoas tristes e deprimidas arrastam máscaras no queixo e no pescoço, pendentes das orelhas, e presas aos pulsos. Raramente no sítio certo, as máscaras são assustadoras por si só. Marcas de um tempo. Que um dia será um importante episódio histórico e que hoje é a nossa alargada realidade. No olhar dos jovens há uma certa revolta pelo tempo de vida que lhes roubam. Embora, se pensarmos bem, roubam bastante mais tempo aos que menos tem. Supostamente. O desconfinamento no território continental não foi um sucesso. E por cá regressam os casos a conta-gotas. Que nos fazem temer. E tremer. Há um susto escondido na ânsia da reposição da normalidade. E há os falsos negativos a passearem-se na brisa da tarde. A impossibilidade de se estar absolutamente descansado. A inauguração do medo. Como se estivéssemos, subitamente, todos em estado de sítio, e soubéssemos ainda a que sabiam os maravilhosos momentos que vivíamos antes, sem sabermos que eram maravilhosos. Como peixes de olhos baços que, nadando livres nas águas, não lhes tivéssemos tomado, verdadeiramente, o sabor. Nestes tempos estranhos em que vivemos há uma agonia surda nas vozes de quem percebe que paira sobre a vida. Não a pode sorver. Beberica-a brevemente, como um pássaro às águas lentas do riacho, na esperança que, mais cedo do que tarde, possa vibrar de alegria ao cheiro da nova primavera. Que seja normal apenas, conhecida, costumeira. Sem ser extraordinária, nem inesquecível. Mas que nos poupe ao medo, ao susto, à latitude ampla da estranheza.

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