Cláudia Cardoso

O cheiro dos afetos

Conhecia-as pelos cheiros. As amigas da minha avó eram discerníveis pelo meu olfato. Todas. Supunha eu que elas não teriam essa noção. Não saberiam que, no meu nariz, moravam os cambiantes do seu cheiro. A minha avó morava numa das artérias principais de Angra. Por isso recebia gente todos os dias. No tempo das urbanas. Gente que vinha de longe e ali parava a fazer tempo para a consulta do médico, ou que o comércio abrisse as portas. E porque ela era uma acolhedora. Ríspida no trato, mas duma generosidade larga. Dava tudo o que tinha e, na falta disso, amizade e conforto. A D. Fusília chegava mansamente. Falava debaixo de água. Tinha dedos esqueléticos, que eu imaginava serem capazes de trabalhos muito meticulosos. Era solteira aos 60 e feliz. Duma felicidade contida. Quando chegava tudo cheirava a naftalina. E, antes que a voz soasse no saguão, já se pressentiam os seus passos miudinhos. A D. Violante tinha um nome carregado de mística e era o oposto. Chegava em alvoroço, sempre ofegante, com uma pressa desmesurada para um mundo que parecia estar a desmoronar-se. Tinha olhos de peixe. E uma gargalhada franca, e cheirava a ervas frescas. Funcho, hortelã e malvas. A D. Carmina via mal e, por isso, antes do cheiro, ouvia-a sempre a tropeçar nas escadas. Cambaleava um pouco. Por vício de não querer andar direita. Piscava muito os olhos. E cheirava a tabaco. Trazia sempre um rolinho na bolsa e, quando a abria, empestava o ar com um cheiro adocicado a limão. Tinha muitos filhos e histórias para contar sobre eles. A que a minha avó dedicava uma atenção mansa, mas apressada. E a D. Celeste que chegava a passos lentos. Arrastava os pés, querendo prender-se à terra. Como se a vida já a cansasse e moesse em demasia. Cheirava a bolo quente embrulhado num lenço bordado à mão. Um cheiro morno e terno como têm as avós. Fechando os olhos inalo uma a uma as recordações das velhas amigas da minha avó. Apreciava-as. Falavam de coisas que eu não conhecia. E pressentia que, por elas, me engrandeceria. Tinha tanta curiosidade sobre elas que me sobrecarregava de vontade de as conhecer. Com elas aprendi a amar os velhos. E a adivinhar, na profundidas das suas rugas, o tamanho do seu sofrimento.