Cláudia Cardoso

O dia seguinte

Dedicado a fazer o luto da abstenção. Continuamos a chorá-la sem a conhecer como seria suposto. Fala-se há décadas da necessidade de atualização dos cadernos eleitorais sem se dar um passo neste sentido. E as verdadeiras razões podem ser muitas. Mas precisam ser analisadas. Espero que este caminho se faça rapidamente. Depois há a noite eleitoral e as suas imensas contradições. A vitória enche a boca de todos. Indiscriminadamente. O PS foi o grande vencedor, legitimando a coligação dos últimos quatro anos. Mas, ainda assim, sem maioria absoluta. O PS foi mesmo o único partido que tirou uma clara vantagem eleitoral da coligação. Os eleitores reforçaram a votação no PS e, ao fazerem-no, significa também que anuem à solução de governabilidade encontrada para os últimos quatro anos. Já os parceiros de coligação saíram mais fragilizados desta eleição. O PSD teve um mau resultado, deixando Rui Rio sem mar em que desaguar. A derrota foi tão dura quanto indisfarçável. Questionando a continuidade deste à frente do partido. O CDS/PP sofreu a verdadeira hecatombe. Tendo visto drasticamente reduzida a sua expressão parlamentar. O que levou à imediata demissão de Assunção Cristas. Deixando o submarino em águas profundas. Nos Açores o PS foi o grande vencedor, embora sem um resultado que permitisse concretizar o quarto deputado. O PSD sofreu outra pesada derrota, perdendo um número superior a oito mil votos. Que mais terá que acontecer para que Alexandre Gaudêncio saia da liderança (se assim se pode chamar) deste partido? Manteve a custo os seus dois deputados, com uma lista anónima, com exceção do segundo candidato. O resultado do PSD no Corvo mostra a dimensão da tragédia. Um voto. Que deve ser lido como a cereja no cimo do bolo para quem já teve a responsabilidade de governar a Região. A surpresa chega pela pulverização de pequenos partidos. Estes cresceram e engordaram sobretudo, agregando no seu conjunto uma percentagem interessante da votação. Com o PAN à cabeça, o quadro parlamentar perfaz agora dez dos chamados pequenos partidos. Dos liberais à extrema-direita, as causas são muitas e variadas, o que significa que o eleitorado também já não se revê nos partidos tradicionais. E quer frescura. Mesmo que esta possa ser, depois, um verdadeiro banho de água fria.