Cláudia Cardoso

O discurso comum


Há uns meses atrás quando o senhor Presidente da República teve a ideia de convidar João Miguel Tavares para presidir às comemorações do 10 de junho, muitas vozes se levantaram. Abominando a escolha do rapazinho sem lastro, genealogia ou coisa que merecesse ser dita. Hoje, passadas as comemorações e feito o discurso do jovem, unem-se as vozes, qual coro celestial, a indicar o caminho pedregoso que é a vida da nação e a endeusar o rapazinho que, tempos antes, merecia apedrejamento antes mesmo de se dignar a abrir a boca. Este é o país que temos. O país que abomina sem conhecer, despeita a juventude, e abandona os seus velhos. Que se apouca perante o estrangeiro e tem em si mesmo o germe que alastrou na corrupção brasileira. A coragem só é exaltada se vier das pessoas certas. Por isso o rapaz de Portalegre não podia, sendo sapateiro, ir além da chinela que o país lhe calçou, habituado que está a arrumar em gavetas metódicas todos os seus descendentes. João Miguel Tavares teria de ser apenas o que lhe estava destinado. Mas não foi. O discurso que proferiu falou da realidade, de um mundo que todos nós conhecemos e que, de tanto conhecermos, achamos trivial até o vermos plasmado numa comemoração. Mas mais. Fez uma outra coisa importante que foi colocar um homem comum no uso de palavra. E o discurso não se cingiu à troca de impressões sobre o mundo abstrato da política, as revisões constitucionais, ou as reformas urgentes do país. Não. O discurso foi sobre a realidade, os seus pais, os seus sonhos, as suas concretizações, e a história da vida de pessoas como nós. E é isto, apenas isto, que destoou. E que fez do discurso o mais partilhado e louvado de sempre. Porque fala daquilo que todos conhecem, ou ouviram contar. É significante. E o país, perante isto, não ligou o piloto automático. Ouviu. É tempo de nos ouvirmos uns aos outros. E é tempo de fazermos mais do que isso. De sermos mais do que o país em que o riso de Berardo acontece. Em que todos se calam perante a injustiça. E em que o conluio é um modo de vida.