Cláudia Cardoso

O morno

Sempre tive um desprezo secreto pelas coisas mornas, pelas coisas incapazes de provocar uma emoção. Por mais envergonhada que fosse. Pelas coisas que não provocam ódio nem paixão, que não provocam atração nem repulsa. Que ficam no limbo da vida, sem saber para que lado cair. Sempre detestei a expressão "vai-se andando...", porque encerra um conformismo contrário à própria vida. E a brevidade desta não se compadece com deixá-la simplesmente passar. Como se caíssemos na corrente dum rio e, apesar de contrariados, nada fizéssemos para nos salvar. Ou então, pelo contrário, sabendo que íamos morrer, não fôssemos capazes de retirar o melhor partido desta viagem, antes da aproximação da cascata. Sempre repudiei as coisas mais ou menos. Um filme mais ou menos, uma dia mais ou menos, um livro mais ou menos. Abandono os livros mais ou menos. Cujo resumo da contracapa é publicidade enganosa, incapaz de cumprir a promessa de encantamento. O mais ou menos é pura perda de tempo. Viver deve ser entusiasmante. Deve operar a magia do descarrilamento, mesmo daquilo que tomávamos como certo. Deve ser capaz de colocar as nossas próprias ideias em perspetiva sobre um assunto. Viver deve ser minimamente perturbador. Deve espicaçar-nos, levar-nos a limites desconhecidos, apresentar-nos a versões desconhecidas de nós próprios. Deve acordar a motivação, o interesse, a paixão pelas coisas que nos rodeiam. Quando não, seremos apenas burocratas da nossa vida. Que picam o ponto e encadeiam a rotina previsível. Sem encanto, sem emoção, sem perturbação. Cinzentos como tecnocratas. Destituídos de criatividade e de imaginação. Se não nos entusiasmamos com o dia que se abre perante nós quando acordamos, algo vai mal. O que não nos faz estremecer, nem pensar. O que não nos deslumbra, nem constrange. O que não nos arrebita nem entusiasma não merece constar do nosso epitáfio. Que alguém lerá no dia em que já nada disso interessar mais. Nem a nós, nem aos outros.

claudia.cardoso9@gmail.com