Cláudia Cardoso

O Salvador fofinho

Nunca tinha ouvido falar do Salvador. Não do Messias, que a este a fama precede-o, mas do outro, que subiu ao palco da Eurovisão. Isso porque há décadas que não assisto ao Festival, e porque andei distraída da voz cândida do miúdo. Agora que ouvi achei-lhe piada, é dificil ficar indiferente àqueles trejeitos imberbes que revela enquanto canta. À voz sussurrada que lhe vem do jazz, e ao meneio das mãos como pássaros prestes a levantar voo. Gostei de quase tudo nele. Da cadência jazzística, do compasso lento da música, da letra lugar-comum, mas enternecedora. Gostei dele. É muito dificil não gostar, na verdade. Mas surpreende-me o arrebatamento português com o miúdo. As redes sociais dispararam a veneração. Ele é bom, mas não é isso tudo. Há muitas vozes melhores em Portugal, letras mais interessantes, músicas também. O Salvador fez o resto ficar cinzento. O encantamento é isto. E suspeito que a tolerância de ponto do dia 12 seja muito mais utilizada como preparação para o desempenho do Salvador, do que para o efeito por que foi atribuída. É muito portuguesa esta tendência para o deslumbramento. Morremos de amores por um Salvador, a quem esqueceremos, talvez, brevemente. Até porque o rapaz canta há uns tempos, e encanta 10 milhões há bem menos. O arrebatamento é português. Faz vibrar o país por uma vozinha ternurenta, num corpo de miúdo, e nós, paternalistas, com vontade de o aninhar no colo. Mas uma voz à qual falta a portentosidade de encher a sala e acelerar o ritmo cardíaco. Uma música fofinha como um teddy bear, mas que não correrei para ouvir segunda vez. As músicas anteriores são melhores. E aquele Salvador também. Este tem uma candura retocada. O outro tinha mais liberdade de gestos e, por esta via, mais autenticidade. Este Salvador podia, facilmente, estar numa prateleira de peluches na Disneylândia. Era capaz de levá-lo para casa, mas temo que acabaria por esquecê-lo passados uns tempos.

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