Cláudia Cardoso

O silêncio do mundo pesa


Mesmo sabendo da circularidade da História chegaram as imagens a que ninguém queria assistir. Nas primeiras horas de 16 de agosto a cortina negra desceu sobre Cabul. Dos cadafalsos da memória mais escura regressa a treva talibã. Que arrasta como cartão de visita a restrição sumária dos direitos penosamente conquistados nos últimos 20 anos pelas mulheres. É a interpretação da lei islâmica, justificam os seus defensores. Com o afastamento radical de qualquer forma de relevância e o apagamento generalizado da imagem feminina. Não esqueçamos que esse é um dos princípios, mesmo que dissimulados, de muitas religiões. O susto secular do poder feminino. De 2001 recordamos o chicoteamento e a morte de mulheres na rua por não estarem acompanhadas de um elemento do sexo masculino, as execuções massivas em estádios, a lapidação das adúlteras. Que regressa agora pelo desaparecimento da sua imagem da televisão, da proibição do uso de cosmética, pelo obrigatório e exclusivo uso da burca. Hoje nas ruas de Cabul a imagem feminina é pichada em cartazes, retirada das montras, encostada à sombra. Das 250 juízas do país duas foram já assassinadas. O regresso do impedimento de estudarem ou trabalharem fora de casa. A proibição de comprarem a comerciantes masculinos e a de receberem tratamento por médicos. E, em caso de incumprimento, o regresso dos açoites, dos espancamentos e das ofensas verbais. Para as mulheres que mostrem os tornozelos. O silenciamento abrupto das mulheres. A longa borracha da história a rasurar em 4 dias conquistas de 20 anos. As meninas e as mulheres afegãs emudecidas e votadas à providencial sombra masculina. Resta a fuga desesperada e impotente na maioria dos casos. Vídeos de gente desesperada agarrada a aviões que já rolam na pista, gente que cai de aviões em voo, explicam bem o desespero. E que compreendemos nós confortavelmente sentados no sofá europeu? Que os talibãs possam moderar o seu discurso sanguinário e a sua ação? Mesmo quando se sabe que há notícias de meninas maiores de 15 anos exigidas às famílias para desposarem os vitoriosos? Acreditamos ainda na diplomacia estrangeira que entregou de bandeja este fosso ao país? Não há nenhuma reaão para acreditarmos que desta vez será diferente.
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