Cláudia Cardoso

O susto

Desta vez foi a doer. A passagem do furacão Lorenzo deixou um rasto considerável de estragos, embora apenas materiais. Porém, há várias ilações deixadas pela sua passagem. A primeira é a de que as alterações climáticas originam fenómenos novos e mais violentos, a que os Açores passam a estar sujeitos, mas para os quais não se encontram totalmente preparados. Por desnecessidade passada até. A segunda é de que o Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores tem contornos de prontidão e excelência. Garantiu e assegurou a segurança das populações e revelou-se um bom exemplo. A terceira foi a forma humana, antecipada e descentralizada como o Governo Regional lidou com este episódio. O quarto é o de que, apesar da internet e da mobilidade, os Açores são ainda um mundo desconhecido para os continentais e não só, que insistem em trocar as tintas em direto. Jornalistas e especialistas irmanados a falarem da hora de Portugal e da ilha de Ponta Delgada foi feio de se assistir. Até o “New York Times” se referiu aos Açores como um protetorado de Portugal. Incha a ignorância e mirra o esclarecimento. Uma calamidade transversal. Por fim, a falta de solidariedade entre açorianos exposta nas redes sociais e não só. A mim custa-me que as ilhas menos afetadas pelo furacão brinquem com o fenómeno. Desde gente que falou na passagem duma “brisa”, em tratar-se apenas do “vento normal” desta altura, a quem disse que até “dormiu de janela aberta”, ou ao presidente de uma Câmara que exigiu a presença da RTP/A, tudo isso me assusta. Não basta pedir a justa coesão em matérias determinantes para o desenvolvimento dos Açores. Quando calha a desgraça ela não chega em doses iguais. Mas, se somos todos açorianos, não basta sê-lo nos momentos de repartição do bolo, é preciso mostrarmos isso mesmo nas piores alturas. Revelando que, apesar de no grupo oriental não ter sido tão mau como foi no grupo ocidental ou no Faial e Pico, sabemos ser solidários. Não foi isso a que se assistiu, antes a atitudes deploráveis, com críticas à cobertura televisiva desigual entre ilhas (mas conforme as previsões do IPMA), e ao próprio furacão que foi “fraquinho”. Ora, um descalabro de pequenas invejas e uma falta de solidariedade gritante para quem, pensando não ter sido vítima, o é ainda assim. Nem que seja da sua própria ignorância.