Cláudia Cardoso

O túnel

Houve um tempo em que se acreditou que a política salvaria o mundo. Este tempo definha e desvanece-se. Mesmo que não pareça à partida. Por culpa dos que transformaram a ágora num espaço sujo. Os jovens viram-lhe as costas. Mas, que alternativa deixámos à juventude, afinal? Platão, há mais de 2500 anos, iniciou um trabalho de monumentais proporções no ensinamento dos jovens, que hoje desprezamos. Com o argumento de que eles não têm muito para dar, sem pensar naquilo que nós próprios lhes demos. Uma educação demasiado massificada. A noção de que o trabalho não dignifica. A voracidade do ter sobre o ser. A corrida desenfreada ao pote do ouro. O mundo é um lugar escasso. Competitivo, voraz, injusto, que os precariza e humilha. Qualificam-se ao extremo das suas capacidades, e a realidade não lhes responde com mérito ou reconhecimento. Dá-lhes o mínimo quando lhes exige o máximo. A juventude de hoje é a mais qualificada, mas a menos educada. E a culpa não é, desta vez, da educação. Ou da escola sequer. É dum modelo de sociedade e de família que aligeirou esta responsabilidade. Embora ainda erga a voz a exigi-la. Não há espaço para que as crianças sejam crianças, nem para os jovens serem apenas jovens, condicionados a serem adultos precoces e, claro, impreparados. Numa Europa que já deixou de ter grande coisa para lhes oferecer. Que regressa soturnamente, em passo lento, mas por dissimular, às trevas dos movimentos nacionalistas radicais. E os olha de soslaio. Como faz com os imigrantes que a ela aportam. Com sobranceria e desconfiança. Preparada para guetizá-los como na II Guerra. Criar um jardim zoológico no qual se exibam as aves raras, mostrando como somos capazes de recebê-los bem e de lhes dar comida a horas. Com grande estranheza e absoluto desconforto. Do outro lado do Atlântico a oferta não melhora muito. A política torna-se uma atividade bizarra. Aproveitada pelo show business. O único capaz de credibilizar Donald Trump.

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