Cláudia Cardoso

O vício da superfície

O mundo atual tem uma predominância evidente da imagem. Que importa mais do que a essência. Que importa tudo até. O parecer ganhou amplo terreno. É por isso que hoje interessa sobretudo registar o momento. Mas quando se preocupam em registar não o vivem. Quando a voragem é gravar para reproduzir. Registar para divulgar. Então o que fica desse manto de aparência é o impacto que causa nos outros. E menos o que causa em nós. Tal como o que distingue o turista do viajante é o olhar superficial. O que importa ao turista é registar o momento, para depois demostrar aos outros nas redes sociais como a sua vida é intensa e válida. Hoje, a validação dos outros é indispensável ao autorreconhecimento. Já ninguém quer viver ou experimentar, mesmo antes da experiência importa revelar aos outros a felicidade. Mesmo a que por vezes não se sente. E só os gostos, os likes, as visualizações, as partilhas reconhecem a alguns a sua parca existência. As razões porque validam podem ser as mais diversas. Também no fanático do registo o que urge é postar nas redes sociais os sentimentos. Porém, os sentimentos quase não se sentem, com a absoluta pressa de mostrar aos outros que são felizes, que tem amigos, que convivem e se juntam, que sorriem ao mesmo tempo. A preocupação em exibir a felicidade é maior do que a felicidade em si, a preocupação em angariar likes supera a da verdadeira conexão. Os amigos virtuais são mesmo só isso. Virtuais. A realidade vive-se hoje através do ecrã do telemóvel. Por isso há amigos do facebook que são, na rua, meros desconhecidos; gente que coloca likes, mas nunca faria um elogio cara a cara, gente que partilha a foto do Instagram, mas que nunca a divulgaria por outros meios. Há uma réstia de mera aparência nisto. Parece bem que se seja de uma forma nas redes sociais que dificilmente se conforma com a versão real da mesma pessoa. Os que vivem vidas para além da virtual começam a ter sérias dificuldades em conformar-se com este novo dialeto. E quem não o domina, ou não o exerce na íntegra ameaça vir a ser ultrapassado pela vertigem da aparência. Ser feliz pode esperar quando a pressa é mostrar aos outros que se é.