Cláudia Cardoso

Os contornos do afeto

Não sabemos bem o que nos faz gostar mais de alguém do que de outrem. Ou sabemos, ao invés, bem demais? Porque chamamos amiga a uma pessoa que conhecemos há menos tempo, e apenas conhecida a outra que conhecemos há demasiado tempo? Porque nos ensombra os dias não ver uma amiga durante muito tempo? E porque é tão retemperador dar dois dedos de conversa com uma pessoa em quem confiamos? As amigas, sendo sempre poucas e extremamente selecionadas, têm a capacidade de nos lerem sem abrirmos a boca. De telefonarem, providencialmente, quando estamos tristes e ensimesmadas. As amigas são gente que colocamos na nossa vida. Que escolhemos para a povoar. Com elas gosto de conversar sem tempo. Que me perguntem pelos filhos. De as ouvir falar das suas conquistas. Gosto das amigas interessantes, com quem aprendo. Das loucas, que me fazem ousar. Das curiosas que me espevitam. Das caladas que me deixam falar durante horas. Das faladoras que me ensinam a ouvir. Gosto de saber que há na minha lista telefónica meia dúzia delas que nunca me deixam mal. Que me recebem aperaltada ou desgrenhada. Racional ou emotiva. Que me aceitam com a parafernália imensa que arrasto. Que arrastamos todos, mas alguns ignoram. Gosto do seu sorriso quando me olham. Do abraço quente. Da gargalhada descontrolada com as piadas das outras. Gosto do elogio delas no dia em que nem me olhei ao espelho. Ou da palavra de apreço que se esforçam por lançar no limite das suas forças e que me resgata de um poço fundo. Um elogio de uma amiga é um bálsamo. Uma crítica também. Essa chapada na cara que nos faz ver o que estava ali, à nossa frente, e fazíamos por ignorar. Gosto do cheiro a café e da trivialidade da conversa. Gosto do braço dado da parceria no meio da festa ou no retiro espiritual. Gosto de as saber minhas. Poucas e maravilhosas. Deslumbrantes nos saltos altos dos seus defeitos. Belas mesmo sem decote, inteligentes sem Google. Serenas sem antidepressivos. Gosto tanto, tanto delas que, hoje, que não se celebra o seu dia, me asseguro de que lhes digo novamente, repisando, o quanto as adoro. E estimo. E faço por elogiar, normalmente em privado, e agora em público. Ia pôr os nomes abaixo, mas lembrei-me de que elas têm outro superpoder: o de (me) ler nas entrelinhas. Obrigada.

claudia.cardoso9@gmail.com