Cláudia Cardoso

Pouco futuro

Chega o outono, e com o cair das folhas, vem as desgraças da estação. Sempre distintas das do estio. Os incêndios são substituídos por nevões. É também o tempo das previsões orçamentais. Cá e lá se articulam volumes financeiros para fazer face às despesas anuais. As discussões acendem novos incêndios. E os temas recorrentes são chamados à colação. Porém, a mãe que colocou o filho no lixo arregimenta o país para a sala de audiências. Muitos juízes a vociferarem contra o desconhecido. A sentenciarem uma criança maior que abandonou outra. A atirarem pedras permanentemente. O país feito um antro de treinadores de bancada. Com opinião sobre tudo e muito pouca ação. Portugal é um país de palradores. Conserva nos trejeitos antiquados restos do saudosismo da ditadura. Somos gente de queixume. Que fixa sempre o copo meio vazio. O que lhes falta agiganta-se. O que tem amesquinham. Outros vêm tirar o proveito da nossa miopia. Veja-se a baixa da capital, tomada a soldo por hordas de turistas e imobiliárias estrangeiras. Os residentes, cinzentos e tristes, a esgueirarem-se pelas laterais das ruelas secundárias, sem capacidade de enfrentarem um país que vão perdendo a prestações. Lula foi libertado. Meio Brasil festeja, a outra metade regressou ao covil de trevas onde moram os conselheiros de Bolsonaro. A igreja evangélica educa milhões na caminhada da ignorância. Do regresso ao machismo empedernido, à ignomínia e ao obscurantismo. Esta gente de Chico Buarque grita contra o túnel, mas a luz vai-se apagando lentamente por lá. Em Portugal os serviços de saúde afundam-se. As histórias macabras assustam o mais fundo que há em nós. O país doente com o professor que bateu num aluno, mas demasiado indiferente aos alunos que vão batendo nos professores. Que não os desafiam apenas individualmente, mas que desafiam o sistema, a autoridade, o conhecimento, e a dignidade. Que nos desafiam como país a tomar uma posição urgente. Mas, Portugal quer é discutir a atitude da mãe que colocou o filho no lixo. O país não quer discutir as dezenas de professores que diariamente se esgotam nas escolas para lhe dar algum futuro. Que futuro tem um país assim? Muito atento ao caso isolado, desatento à epidemia? Pouco. Ou nenhum.

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