Cláudia Cardoso

Ser escritor

Portugal é o país com mais escritores por metro quadrado. A ditadura em que viviam os portugueses vedou-lhes o acesso aos livros durante décadas, e disso nasceu grande parte do obscurantismo que ainda hoje, nos faz sofrer. Ao contrário de outros países europeus, em que a chegada da televisão não se fez à custa de potenciais leitores, em Portugal tal não sucedeu. Na verdade, mal saídos duma ditadura, e ainda acabrunhados, com o analfabetismo em níveis excessivamente elevados, os portugueses viram a televisão entrar-lhes pela casa dentro. Sem terem tempo de procurarem a evasão saudável da leitura, acederam ao fácil entretenimento televisivo que, raramente, obriga a grande esforço intelectual. Hoje, passados 44 anos quase todos lêem, o analfabetismo desceu para níveis residuais. Coisa diferente é apurar, de entre estes, os que tem gosto genuíno pela leitura. E, de entre os que o têm, aqueles que são verdadeiros leitores, isto é, com suficiente espirito crítico para escolherem com propriedade o que lêem, e seriarem o que vale a pena, do que não merece o seu lugar na estante. E, se virmos por este prisma, afunilamos o resultado. Inversamente, para tão poucos leitores, Portugal publica muito. E do muito que publica sai de tudo. O jornalista desencantado, a fada da etiqueta, os magos da auto-ajuda, os pedagogos falhados que resolvem ensinar os outros a serem bons pais e melhores educadores dos filhos, as nutricionistas que transformam obesas em barbies. A somar a tudo isto a miséria da auto-edição. As editoras que aceitam que todos possam publicar, independentemente da qualidade. O resultado são quilómetros de edições anuais que não lembrariam ao diabo. E que, em muitos casos, não serão lidos para além da esfera familiar do próprio autor. Enchendo os escaparates, banalizando a edição, criando a falsa expetativa de que qualquer um pode ser escritor, independentemente do mérito.

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