Cláudia Cardoso

Tristes palhaços

Há muita miséria humana na prestação de declarações de Joe Berardo à comissão parlamentar da Assembleia da República. Há desplante também e larga impunidade. Mas se apurarmos o olhar há miserabilismo intelectual, sobranceria, desfaçatez, má-fé. Há inimputabilidade e uma clara noção disso. A forma grotesca e inábil, arrogantemente inábil, como respondeu aos deputados dizem bastante tudo sobre a personagem. Um cromo. Desses que salta do almanaque e nos povoa os piores pesadelos. De que caverna saiu este energúmeno, pergunta-se? Não é bem isso. É uma criação nossa. Tolerada por todos. E pior. Enaltecida e condecorada. O homem não ignora tudo, afinal. Sabe que o dinheiro não compra apenas bens materiais, mas ajuda a comprar estatuto. O de inimputável, por exemplo. O solavanco coletivo que nos deu só agora é, afinal, velho. Tem barbas. Joe Berardo é um jogador que conseguiu manipular o banco do Estado e cuja dívida se recusa a pagar. Foi assim que atuou, no limiar absurdo da legitimidade, quando usou a coleção Berardo para fazer chantagens sucessivas sobre o Estado, enquanto se apresentava ao país como o mecenas. Um rico bom. E nós, que somos pobres, que sempre fomos mesmo pobres, achámos graça ao pindérico. E foi essa a grande lição que deu ao país, em direto da casa da democracia, que o dinheiro com que paga o seu advogado o pode livrar de tudo. E, mesmo que a sua dislexia o atrapalhasse visivelmente, contava com um ventríloquo para fazer falar o fantoche. Nós, assustados, pensámos, então, que o palhaço era ele. Errado outra vez. O palhaço somos nós. Por isso é que ele se ri. De sermos papalvos medíocres. E de vivermos num país que não atua. Que pactua. E que deixa que isso aconteça nas nossas barbas. O homem condecorado por dois presidentes da República, e pelo Estado francês, elogiado pelo universo artístico nacional e pelos meios financeiros, coberto por uma fundação pujante e pela paixão cultural, é afinal malabarista. Especialista em vazios legais, nunca foi muito incomodado pela Justiça. Os portugueses enganaram-se. Ele, como antes, saiu a rir. Agora agastamo-nos com a retirada das sucessivas condecorações. Mas será que é apenas disso que se trata?