Cláudia Cardoso

Uma ilha ao peito

Na passada terça-feira perfizeram-se 40 anos sobre a morte de Vitorino Nemésio. E, curiosamente, neste ano também se assinala o aniversário da primeira edição de diversas obras suas, da poesia à crónica. Nemésio é praiense, é terceirense, é açoriano. Foi um exímio professor, escreveu “o” romance açoriano, na opinião de muitos. E fez sobretudo o RX desta coisa da açorianidade. Que nos dói a todos e que dificilmente se explica. Foi apelidado de conservador e de fascista por uns, e de liberal e extraviado, por outros. Sabe-se que era proverbialmente distraído e é conhecida a errância das suas aulas, cuja corrente de pensamento fecundo punha à nora os estudantes para apurar a matéria para o exame. É o patrono duma escola secundária na Terceira e até de uma via rápida. Mas não é conhecido pelos portugueses pelo conjunto da sua obra. Nem em vida granjeou público por via desta, coisa que a televisão lhe deu, através do “Se bem me lembro”. Num documentário elaborado aquando da sua morte, os entrevistados reconheciam-no apenas pelo romance e pela televisão. Ignoravam, porém, que tivesse sido poeta. E, ainda mais, que era sobretudo isso que tinha querido ser. Como afirmava que o seu próprio pai havia sido. Neste ano, a editora Companhia das Ilhas, em parceria com a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, prepara-se para dar um contributo no sentido de minimizar este desconhecimento. Através da reedição da sua obra completa, numa versão mais apelativa para o leitor atual, e com a coordenação de Luiz Fagundes Duarte. Mas, não basta que haja gente disposta a fazê-lo, é fundamental sobretudo que os leitores, e os que ainda não o são, deem o passo fundamental de o conhecer. Estamos a falar de um pensador profundo e sistemático sobre os Açores, sobre os açorianos, e sobre o que é isto de aqui nascer, de aqui estar, e de, mesmo saindo da ilha, nela permanecer para sempre. É isto que todos temos em comum com Nemésio. Uma ilha ao peito.

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