Eduardo Ferraz da Rosa

De Alexandria à Conceição, ou Destinos de Biblioteca...



Os nossos amigos José Elmiro Rocha e Cláudia Alexandra Cardoso são os dois únicos concorrentes ao lugar de director(a) da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo (BPARAH), lugar vacante desde a morte do nosso saudoso camarada Marcolino Candeias.

Ora tal concurso público, cujo desfecho não é conhecido até hoje – mas que, após decisão do seu júri, será apenas formalmente promulgado pelo Secretário da Educação, Avelino Meneses –, pelo facto de estar a verificar-se sensível demora, ou assim entendida, na divulgação do seu respectivo apuramento, está gerando expectativas em vários sectores da vida político-cultural, laboral, jurídica e partidária açoriana (mormente terceirense e angrense)...

– E não é de admirar, atendendo às valências daquele cargo, se bem que, na generalizada opinião popular ou na consciência vulgar, tal atenção decorra menos de autênticas paixões pelo mundo civilizacional (histórico-patrimonial, literário, artístico e cultural) dos livros e tombos, do cômputo dos currículos técnico-profissionais (específicos dos opositores admitidos) ou até da releitura do Edital do concurso, do que devido a fixações nos perfis sociais, quiçá políticos, ou mesmo partidários, ali presentes...

José Elmiro Rocha tem vasta carreira de direcção e gestão efectivas em Arquivo, Biblioteca e Ciências Documentais (desempenhadas na Horta e em Angra do Heroísmo); Cláudia Alexandra Cardoso exerceu proficiências em dois executivos do PS (nomeadamente na Educação e Cultura, usual tutela das áreas departamenatis em causa), e foi deputada regional socialista (aliás agora sintomaticamente removida das listas de Vasco Cordeiro, Sérgio Ávila, Roberto Monteiro e Fátima Albino)!

– Mas seja como for ou vier a ser o desenlace desta disputa concursal, certo é que a/o preferida/o assumirá certamente um lindo rol de desafios numa instituição que, sendo Depósito Legal e tendo notável historial e provecto prestígio (ver os seus ex-directores aqui: http://www.bparah.azores.gov.pt/html/bparah-historia+diretores.html), vem sendo sujeita a inadmissíveis e copiosos constrangimentos, rotinas, arrastamentos, impasses estruturais e técnico-laborais (também por entre as mal-vendidas ruínas da rua do Marquês e os imbróglios provisoriamente soterrados nos alicerces e muros baços das suas futuras instalações!):

Tudo exigentes dossiers e processos resvaladiços, minados ou ainda potencialmente problemáticos e comprometedores (programática, político-institucional, orçamental e financeiramente) que irão povoar gabinetes, corredores, planos e projectos, ou não fosse a Biblioteca sempre símbolo/paradigma de ficcionais mistérios, espectrais segredos, belas lições e revelações concretas, desde a fabulosa e mítica Alexandria da antiguidade (passando pelas narrativas ao inspirador modo de Borges, Manguel e Eco...), até às paroquiais cercanias da colina angrense com a Direcção Regional da Cultura e o Santuário da nossa contemporânea Conceição, para onde vão ser carregados,

transportados e reinstalados, durante meses e anos por aí baixo e acima, as ricas existências da BPARAH, oficialmente agora rebaptizada de Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro:

– A mesma que o (actual) Governo Regional dos Açores já anunciou querer “inaugurar” (certamente para a fotografia de balancete do seu frutuoso mandato a caminho do termo, mesmo que apressadamente e a título precário ou improvisado – e não era sem tempo, diga-se, para limpar fachadas! –, provavelmente já com o novo director – ou a nova directora... – a empossar, ver-se-á quando, e como, assistindo à cerimónia do seu solene corte de fita, com mais ou menos água benta (para remissão de pecados originais...), e com outras fitas, efeitos e desfeitas à margem da emblemática placa da festa de abertura para a nossa posteridade histórico-cultural (e política, naturalmente, como em todo o caso sempre identicamente o seria, com mais ou menos capacete partidário em tanta cabeça insegura e conformada estante...).