Eduardo Ferraz da Rosa

Lições e Sombras da Chin ou Kissinger, Eça e os Açores



A recente passagem do Primeiro-Ministro chinês pela ilha Terceira suscitou análises e detecções de sinais e factos correlacionáveis, para além de comentários jocosos e agridoces, curiosas observações jornalísticas, e até a divulgação de um notável vídeo sobre as Lajes que gerou embargos de respiração mediática, militar e diplomática.

– A filmagem acima referida, como é sabido e foi revelado ao jornal Expresso pelo nosso amigo e colega académico Miguel Monjardino (e por ele próprio analisada na sua habitual Coluna daquele semanário), revelou ter sido retardada a descolagem da Base das Lajes do avião da comitiva oficial chinesa devido à coincidência, ao minuto, das aterragens sequenciadas, na mesma pista da nossa BA4, de oito aeronaves ocidentais aliadas (seis EA-6B Prowler e um Boeing C17 americanos, e um CC150 canadiano).

Porém, embora seja também sabido que aquele trampolim de logística aérea norte-americana e da NATO não constituem novidade absoluta – porquanto a escala e o destino de tais aviões rumo ao Médio Oriente é quase de rotina –, a verdade é que, conforme partilhamos, a simultaneidade daquela evidentemente calculada e planeada operação com o horário de partida do Boeing 747 da Air China pode ter configurado um simbolismo nada despiciendo, tanto mais quanto tal manobra deverá ter sido do superior acompanhamento, prévia concordância e autorização tácita (se é que não do comprazimento de altas chefias militares portuguesas...).

– De resto, nos últimos anos, a passagem de individualidades chinesas pelos Açores e pela Terceira começa a revestir-se de já notória e sensível regularidade e aparato institucional e social (bem diferentes das famosas “escolas técnicas” que se verificavam na ilha de Santa Maria...), bastando pois relembrar que, com visitas e programas estudados, por aqui passaram o Presidente chinês Xi Jinping (em 2014), então acolhido por Paulo Portas, e Wen Jibao, anterior Primeiro-Ministro (em 2012), para além de Wang Hong (Ministro do Mar chinês) que este ano foi recebido por pelo chefe de Executivo regional... E agora coube a vez a Keqiang, ao seu encontro tendo vindo prazenteiro o Ministro Santos Silva, alegadamente para “preparar” (sem nenhuma “escondida”) agendas queridas do Governo português, v.g. as conducentes, e bem, à prestigiante e feliz eleição de Guterres para Secretário-Geral da ONU, e para declaradamente compor chás e pormenores no bule da visita de António Costa, apesar de Geng Shuang, porta-voz do MNE da China, ter enxutamente afirmado que “pelo que sabemos (sic), o Primeiro-Ministro Li estará na ilha Terceira para uma escala técnica”.

Todavia, seja como for, esses factos e sinais, uns e outros, não deixam de continuar a constituir ainda peças para urgente, informada e fundamentada retoma de atenção a tudo o que em profunda dimensão e significado se articula com o actual trânsito transatlântico da China e com esta outra “escala técnica” sínica (em todos os seus contextos histórico-temporais, geopolíticos, comerciais e estratégicos), ou não estivéssemos perante agentes e actores cujos singulares cânones e biombos civilizacionais, culturais e ideográficos mergulham numa longa e ancestral cadeia de muralhas, rotas e malhas de pedra e seda (com imperadores, mandarins e muito pacientes mas obstinados timoneiros e vassalos), como Henry Kissinger lembrou no seu “tratado” Da China ao perspectivar e problematizar a nova ordem mundial e o futuro possível das relações sino-americanas (que hoje temos imperativamente de rever à luz ainda das dialécticas e contradições com que o velho Mao pavimentou os interesses

permanentes e as marchas e contramarchas milenares, nacionalistas e internacionais de Pequim).

– Desengane-se pois quem incautamente alinhar em retóricas e jogos antecipadamente perdidos para peões descalços e analfabetos, alimentando ilusões de anão em pontas de pés, ou servindo de figurante pobre numa planetária dança de hegemonias onde misérias de barriga e mente se projectam só em provincianos papéis de marioneta, num cenário de sombras simultaneamente chinesas (asiáticas) e platónicas (ocidentais)!

E isto, repita-se, como escrevi anteriormente a propósito do nosso Eça, a direito ou no avesso simbólico daquele “amanuense do Ministério do Reino” vendendo a alma e a pátria ao Diabo, – dê-se o nome que se der aos recorrentes Teodoros (“mangas de lustrina à carteira” do Estado); aos milhões sonhados nos oblíquos olhos de Ti Chin-Fu (ou de Li Keqiang); às oníricas alianças de tanto “boy” com as generalas de toda a casta institucional; aos Camilloffs da neo-geoestratégia mundial, ou até à euro-luso-açórica casa de hóspedes e patacas de Madame Augusta, num clientelar e irrealista pagode de untuosas palmas e verbenas..., enquanto se atiram rústicos coices aos amigos e aliados de outrora (de sempre!), que afinal foram quem lhes/nos deu cama e mesa e farda lavada durante (saudosos?) anos a fio...

– É pois neste quadro complexo, evolutivo e multi-factorial (a nível local, regional, nacional, euro-atlântico e mundial), com maior relevo e interesse nosso, naturalmente, para tudo o que directa ou indirectamente também passa pela Base das Lajes e pelo que ela geo-estrategicamente representa para todos, que devem ser situadas e rigorosamente perspectivadas as situações que aqui afloramos, mas sem esquecer ainda que gestos como o de Devin Nunes, ao escrever agora a Ashton Carter (Secretário da Defesa dos Estados Unidos), dizendo ser “provável”, pelo constatado desinvestimento americano aqui, que as instalações da Base das Lajes “acabem na posse do governo chinês”, tem algo de muito pouco verosímil e devem ser descodificados à luz da política interna norte-americana, nomeadamente nesta quadra de eleições para a Casa Branca, onde as disputas entre Republicanos e Democratas ganham paradigmáticas vivacidades discursivas e um relativo carácter espectacular.

Mas mal assim seria dos Açores (e de Portugal!) se as nossas “políticas diplomáticas, económicas e de Defesa”, como nos dizia um interlocutor bem familiarizado com todas elas, caísse numa espécie de presumidos e manipuláveis “lobbies” vertidos em fall-riverismo inócuo, inocente e irrelevante, tão ou mais insignificantes e ridículos, no seu amadorismo risível, provocatório e insciente quanto aquelas proverbiais tiradas, chantagens e boçalidades históricas de Cordeiro ao alvitrar que as Lajes podiam vir a ser exploradas pela China, para logo mais sentenciar, movido a ventos de circunstância pesada, que “A relação diplomática que Portugal tem com a China é muito anterior à relação diplomática que tem com os Estados Unidos” (sic)...

– De facto, melhor do que tudo isso e aquilo, enquanto também se espera pelos resultados da visita de Costa a Pequim (e aí veremos, por exemplo, se é para Sines que irão os entrepostos sonhos portuários da Praia da Vitória...), melhor talvez fosse voltar a olhar para os velhos cartazes e slogans anti-americanos (agora pró-chineses e pró-Lisboa?) mandados amarrar às pontes de acesso à Base das Lajes, ou então proceder à releitura (instrutiva, quem sabe?) de um ilustrado e aguerrido Relatório (esquecido relambório?) da Câmara e Assembleia Municipal praienses, sumamente lucrativo para formulação de juízo presente e futuro sobre algumas das causas e sombras que nos cegam e cercam desde há muito! A nós e a Portugal no seu todo, infeliz e fatidicamente, como sempre.