Fátima Rosado

A Engrácia e os meus bolinhos de coco

A Engrácia e os meus bolinhos de coco A Engrácia e os meus bolinhos de coco

Aqui há uns tempos, fui a casa duns amigos e reencontrei lá a Engrácia, mais uma vez. Engrácia tinha um cancro e apesar de viver em Peniche, vinha a Coimbra com frequência, fazer os tratamentos de quimioterapia. Achei que estava a piorar, apesar da coragem, esperança e capacidade de luta, que sempre demonstrou ao longo da doença. No meio duma conversa de nada, em que ela referia, entre outras coisas, que se submeteria a todos os tratamentos por mais agressivos que fossem, porque se queria curar, porque se ia curar, a páginas tantas disse-me: “Os teus bolinhos de coco são muito bons, gosto muito dos teus bolinhos de coco”. Não fazia a mínima ideia que ela gostasse, mas achei que, ali, estava implícito um pedido e fiz-lhe os ditos bolinhos. Como faço quase tudo a “olho por cento” (dizia a minha avó) e como tenho a mania de cortar no açúcar, quando os provei, verifiquei que estavam pouco doces, mas mesmo assim fui-lhos levar. Ela achou que estavam bons e disse-me que os comeu e se consolou. Depois disso, passado talvez um mês, já muito mal, foi obrigatoriamente internada, dado que as metástases tinham avançado inexoravelmente. Andei dia para dia a adiar uma visita ao Hospital. Custava-me ir vê-la naquele estado, sentia que ela já não sairia dali. Mas, uma tarde, enchi-me de coragem e fui vê-la. Levei-lhe, outra vez, bolinhos de coco. Quando cheguei junto dela e embora aquele quadro me fosse familiar, dado que a minha Mãe morreu de uma doença igual, tive um sobressalto - onde estava a Engrácia lutadora e corajosa que eu tinha conhecido? Onde estava a Mulher que dizia que se ia curar porque tinha dois filhos para acabar de criar? Quando ela olhou para mim, senti que o fim chegaria rápido e percebi que ela não tinha desistido, mas que tinha sido, pura e simplesmente, vencida pela doença, embora ela ainda me dissesse, que tinha que “viver um dia atrás do outro”. Sem saber muito bem que palavras pronunciar, naquelas circunstâncias, disse-lhe: “Engrácia, trouxe bolinhos de coco”. Ela olhou para mim com aquele olhar de tristeza que jamais esquecerei e respondeu-me, “não consigo comer, amiga.” Vim embora do Hospital com um sentimento de inutilidade horrível, porque é que eu não lhe dei mais bolinhos de coco antes?