Fátima Rosado

O velho tio egoísta

Conheço-os há cerca de trinta anos e quando os visito, só vejo a tia Ana a bulir e a cirandar de roda do tio Joaquim.

O velho tio egoísta O velho tio egoísta Ele impõe-se como o seu Norte e seu Sul, bem como todos os outros pontos Cardeais. Às vezes questiono-me como é que ela teve tempo para criar aqueles oito filhos, sozinha, e pior do que isso, com o bloqueio daquele homem tão egoísta e tão cioso dos "seus" mais pequenos direitos matrimoniais? Todos os pretextos servem, mesmo os mais insignificantes, para a chamar e fazer as exigências mais mesquinhas: não come refeição que não seja acabada de cozinhar, até a sopa, tem que ser feita na hora. Desta forma, a Tia Ana passa a maior parte do tempo cozinhando para ele. Mas, como também, até há bem pouco tempo, não tinha "licença" para sair de casa a não ser para ir ao médico ou equivalente, lá o ia apaparicando a contento dele. Ela aceita, resignadamente, aquela espécie de servidão, mas há uma coisa que não prescinde – ir à Missa e ao Terço, com as amigas. Claro que ele ficava a vociferar: "lá vão aquelas galinhas chocas, todas a cacarejar, para a igreja, ouvir aquele galo da Índia! Era com esta linguagem de capoeira que ele definia as práticas religiosas da mulher e do detestado padre, que chegara, recentemente, à paróquia. Nunca cheguei a perceber se ele não gostava dele por ser padre e novo, ou pura e simplesmente porque a mulher saía de casa para ir ouvi-lo. Se calhar era tudo em conjunto. Mas, o tempo vai passando e tudo tem um fim, tudo muda. Um dia fomos de novo visitá-lo, tinha ele já uns setenta anos! Quando chegámos, a tia Ana disse: o tio diz que não vos pode receber agora, porque está rezando o terço. Ficámos perplexos e nem queríamos acreditar no que estávamos a ouvir. Ainda esperámos uns dez minutos, mas nada, ele não apareceu, estava rezando... Quando voltámos, passados uns dias, já fomos recebidos, mas, de facto, não era o mesmo homem, ou por outra, era, só que agora tinha outra atitude e outro discurso: agora fazia terços e pendurava-os pela casa toda, inclusivamente, usava um, ao pescoço.

Só tenho uma explicação para esta mudança – ele tem medo que a tia Ana quando morrer vá para o céu e ele não. Na eternidade, em sítios diferentes, como podia ele continuar a chateá-la?