Fernando Cardoso

Duas horas não chegam para ver o Corvo

Duas horas não chegam para ver o Corvo Duas horas não chegam para ver o Corvo Cada vez mais, o nome Açores está ligado à actividade turística.

O número de pessoas que visita o nosso arquipélago tem sofrido, ao longo dos últimos anos, um significativo incremento, resultante do forte investimento que a região tem realizado nesta área.

Todas as ilhas têm as suas particularidades turísticas, com todas as suas potencialidades e limitações.

Naturalmente, a ilha do Corvo não é excepção.

Muito pelo contrário, por ser a ilha mais pequena do arquipélago, com apenas cerca de 400 pessoas, desperta a curiosidade dos turistas.

No entanto, essa curiosidade, não tem, até ao presente, sido concretizada em números.

Pode parecer excessivo dizer-se que uma das maiores limitações ao desenvolvimento turístico da ilha do Corvo é a proximidade à ilha das Flores, no entanto actualmente essa é a realidade.

A curta distancia, cerca de 13 milhas náuticas (25 km) que separa estas duas ilhas tem permitido o desenvolvimento de um tipo de turismo que, na minha opinião, não trás nenhuma mais valia para o Corvo.

Senão vejamos:

A maior parte das pessoas que, actualmente, visita a ilha do Corvo, fazem-no a partir das Flores.

Viajam em barcos semi-rigido das Flores, no Corvo, onde permanecem, cerca de duas horas – e por vezes menos – visitam a caldeira vulcânica, designada caldeirão.

Dão um passeio pela vila e, apressadamente, regressam, pela mesma via, à ilha das Flores.

Não almoçam, não permanecem na ilha, não dormem, não gastam dinheiro e não interagem com a população.

Estes turistas servem, apenas, os interesses dos empresários florentinos e ajudam a engordar (de uma forma falsa) o número de turistas que visitam o Corvo.  

Muitos dos turistas que estão nas Flores e que pretendem viajar até ao Corvo e lá pernoitar, são, demasiadas vezes, fortemente desencorajados a fazê-lo.

“Ficar no Corvo? Para que? Aquilo não tem nada para ver ou fazer. É só o Caldeirão. Uma hora chega para ver tudo”...

Iludidos estão aqueles que depois de visitar o caldeirão e dar um passeio pela vila, ficam convencidos que conhecem o Corvo.

Para se conhecer esta ilha é imprescindível aqui permanecer uns dias, interagir com a população.

No fundo, permitir a troca de culturas, experiências e vivências.

Urge tomar medidas que possam contrariar esta tendência. 

Resta-nos a satisfação de saber que, quem passa uns dias neste pedaço de território, leva no coração um pouco desta ilha e a prova disso é que são muitos aqueles que regressam ao Corvo.