José António Monjardino

A crise de confiança

Há cerca de duas semanas a SEDES, organização cívica constituída em 1970, alertou o País para a possibilidade de aparecimento de uma crise social de contornos difíceis de prever. Escreveram os seus autores que se sente em Portugal “um mal-estar difuso, que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional.

 
 

A crise de confiança A crise de confiança Este mal-estar e a degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento”. Consideram os autores que, se a espiral continuar, “emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever”. Os autores apontam as seguintes razões para este estado de coisas: degradação da confiança no sistema político; sinais de crise nos valores, comunicação social e justiça; criminalidade, insegurança e os exageros do Estado. Este artigo chamou-me a atenção na medida em que, vem ao encontro daquilo que vejo todos os dias: um estado generalizado de depressão Nacional. Quando falo com amigos e colaboradores todos falam em crise, nas dificuldades económicas e na insegurança. Acresce a tudo isto uma ocupação sufocante na comunicação social de todas as desgraças que se passam na sociedade, e os líderes dos países a falarem constantemente de ameaças externas quer de segurança nacional (guerra ao terrorismo, Iraque, Afeganistão, etc.) quer económicas, com a perda de competitividade como pano de fundo, e com consequências evidentes no desemprego e no crescimento da população. O que é para mim espantoso é que este estado de coisas não tem correspondência com os dados objectivos publicados pelas agências internacionais. É esperado que o rendimento médio per capita de Portugal atinja, aproximadamente, os 22.000 USD. Mais ainda, nos últimos 10anos, Portugal tem tido crescimento económico positivo, com a excepção de dois trimestres, na altura do governo de Durão Barroso. Já agora, note-se que em nenhum ano completo!!! Portugal deixou de crescer nesses dez anos. Como podemos falar de crise se o nosso rendimento médio está a níveis que nunca tivemos na nossa história recente (quer quando o medimos em termos externos, quer na perspectiva evolutiva interna dos últimos dez anos). Já agora, se olharmos para os números do mundo, a economia mundial completou 5 anos com crescimento superior a 4% ao ano, completando um período de crescimento económico mundial contínuo que dura mais de 18 anos (dados do Banco Mundial). Não só este resultado se tem traduzido num aumento generalizado do rendimento e do aumento do poder de compra de todo o mundo, como se tem visto uma redução drástica do número de pobres no mundo (de 1999 a 2004, 135 milhões de pessoas saíram do estado de extrema pobreza, tal qual é definida pela ONU)e os índices de mortalidade infantil caíram 25% nos últimos 18 anos, fazendo com que, pela primeira vez na história recente do mundo, menos de 10 milhões de crianças morreram num ano (dados da UNICEF). No que diz respeito às guerras e conflitos, temos uma percepção generalizada, de um alastramento sem paralelo do seu número e gravidade. Pelo menos assim o colocam os diversos líderes mundiais, quando se referem às ameaças externas. Os factos desmentem essa percepção. O número de conflitos caiu de pouco mais de 50 no início dos anos 90, para menos de 30 em 2005. Aliás, de acordo com um estudo elaborado pela Universidade da British Columbia, o número de guerras e conflitos tem vindo a decrescer continuamente, do seu ponto mais alto nos anos 70. Como resultado desta situação, o número de mortos em combate, decresceu de cerca de 200.000 em meados dos anos 80, para menos de 20.000 em meados dos anos 2000. A questão coloca-se em termos da nossa percepção colectiva, estou obviamente a falar da perspectiva da Europa Ocidental e da América do Norte. O desafio que lanço aos leitores deste “blog” relaciona-se com a questão subjacente aos dados que acabei de explanar: Se vivemos num mundo com indicadores materiais e humanos em contínua melhoria, especialmente nos últimos 20 anos, porque é que temos uma percepção de crise e de perspectivas do futuro tão negativas?


 Leça da Palmeira, 20 de Março de 2008

 José A. Monjardino