José Decq Mota

45 Anos de Carreira

45 Anos de Carreira 45 Anos de Carreira
Estava eu em Lisboa no passado dia 29/11 e mão amiga, sabendo-me lá, fez-me chegar um bilhete para assistir, no Pavilhão Atlântico, ao espectáculo comemorativo dos 45 anos de carreira de Carlos do Carmo. Sou, de há muitos anos, admirador de Carlos do Carmo, grande artista e cidadão íntegro, livre e empenhado. Liga-me também a ele uma já muito antiga amizade, muito construída por actos de solidariedade que ele quis dedicar a mim e à luta em que envolvi a minha vida. Por tudo isto, estar no imponente Pavilhão Atlântico, naquela noite chuvosa, foi para mim uma honra e um enorme gosto.
Para além de tudo o que se possa invocar para justificar o gosto de lá ter estado, tem que se dizer que se tratou de um espectáculo de enorme qualidade, qualidade essa presente em todos os aspectos, da concepção, ao alinhamento e às interpretações.
Carlos do Carmo continua a ser o intérprete de génio que conhecemos; os convidados, todos de grande nível, estiveram bem à altura da situação; os guitarristas e a orquestra desempenharam-se de forma excepcional; a luz e o som serviram bem o espectáculo. Tudo esteve bem, mas constituíram momentos especiais, a interpretação que Carlos do Carmo fez de “ Um homem na cidade”, com acompanhamento à guitarra clássica, executado pelo neto, a actuação do filho, Gil do Carmo e, especialmente, a evocação, com som e imagem, da grande Lucília do Carmo, mãe do Carlos.
Circunstância muito feliz é o facto deste espectáculo estar integrado nas comemorações dos 125 anos da muito prestigiada “Voz do Operário”.
Quero também associar-me às comemorações dos 45 anos da carreira de Carlos do Carmo contando uma pequena história. Em 1984 realizaram-se eleições para a Assembleia Regional dos Açores e o ambiente social e politico era, na época, ainda muito “pesado” e controlado por um PSD dominador e de má memória que exercia o poder no nosso Arquipélago. Ai por finais de 83, Fernando Tordo, velho amigo e também grande artista, que na altura estava a viver no Faial, lançou a ideia de se incluir na campanha de 84 uma vertente cultural de elevada qualidade que, para além de contribuir objectivamente para o sucesso da batalha politica que a campanha era, contribuiria fortemente para desbloquear o isolamento cultural que o PSD ainda conseguia impor. Na sequência dessa ideia, o Fernando e eu, encontrámo-nos, na Costa da Caparica, com o Carlos do Carmo com quem conversámos sobre a questão. Devo dizer que fui a esse encontro muito aflito, pois não conseguia imaginar a forma de juntar os meios que pudessem viabilizar uma iniciativa que se tornava cada vez maior e melhor, sempre que se falava dela. Foi nesse encontro que, quer Carlos do Carmo, quer Fernando Tordo, me transmitiram que encaravam aquela série de oito espectáculos a fazer em cinco ilhas, como uma participação solidária, sem custos no que a eles dizia respeito e dispostos a todas as soluções de alojamento e alimentação que correspondessem à nossa capacidade de oferecer em cada ilha. Assim se fez e o ponto alto dessa Campanha foi o espectáculo comício na Auditório de Ponta Delgada, completamente cheio, em que o Fernando Tordo fez a primeira parte e o Carlos do Carmo, com seis músicos em palco, fez a segunda parte. Essa enchente, inédita até então em iniciativas da minha área politica, foi o indicador que a votação na APU (actual CDU) ia ser e diferente e foi, pois nesse ano fui, pela primeira vez, eleito deputado regional do PCP.
Aquele contributo solidário ajudou muito a atingir, quer os objectivos imediatos, quer o objectivo mais geral, de contribuir para o fim do bloqueio cultural de que os açorianos eram vitimas e que, na prática, deixou de existir a partir de 85/86 quando as Câmaras começaram a contratar, sistematicamente, artistas do Continente para as suas festas.
Esta carreira de Carlos do Carmo é feita de 45 anos de profissionalismo verdadeiro, de criatividade artística invulgar, de capacidade em ir ao encontro do Povo deste Pais oferecendo sempre qualidade, respeito pela tradição e capacidade profunda de renovação. Mas estes 45 anos de carreira de Carlos do Carmo estão também muito marcados pela capacidade que ele sempre teve de ser solidário com o que ele considera ser justo, quer se tratem de situações com a natureza da que eu descrevi, quer se tratem de situações de outras naturezas.
Por tudo isto, permitam-me que diga neste momento: obrigado Carlos por tudo quanto soubeste dar a todos nós, portugueses, nestes 45 anos de carreira como cantor impar e homem excepcional.
1/12/08
José Decq Mota