José Eliseu

As festas nas Comunidades de Emigrantes

Qualquer festejo português neste Estado ocidental da América, onde os emigrantes são oriundos maioritariamente do Grupo Central, tem uma matriz programática comum: bodo de leite, cantoria e tourada.

As festas nas Comunidades de Emigrantes As festas nas Comunidades de Emigrantes

Os açorianos são seres que se habituaram a viver no espartilho da exiguidade territorial. Ao contrário de nascituros continentais, têm uma relação mais próxima e logo mais afectiva com o território, valorizando-o muito mais. A expropriação de um are de terreno, por exemplo, para qualquer efeito, provoca uma maior sensação de vazio.

Mas nas ilhas, as dinâmicas empresariais esbarram nas limitações de mercado e o conceito de riqueza é relativizado. Daí que nas comunidades ilhoas houvesse sempre gente insatisfeita, com o desejo de “libertação” e sonhos por concretizar. A situação geográfica do arquipélago dos Açores levou os mais aventureiros e ávidos de horizontes mais largos para o continente americano em busca de prosperidade. Primeiro no Brasil e depois massivamente no setentrião da América, os açorianos mostraram-se uma comunidade trabalhadora e ordeira. Nos principais aglomerados que formaram, mantiveram-se fiéis aos seus dogmas religiosos e replicaram as tradições praticadas na terra de origem. Enquanto que nos Açores, houve uma certa evolução, ou descaracterização, conforme o ponto de vista, de algumas manifestações culturais, nos países de emigração elas continuaram com os traços ancestrais.

Na Califórnia, por exemplo, realidade que eu melhor conheço, nas procissões católicas a taxa de participação dos fiéis é elevadíssima. A forma fervorosa como vivem estas e outras celebrações religiosas é impressionante.

Qualquer festejo português neste Estado ocidental da América, onde os emigrantes são oriundos maioritariamente do Grupo Central, tem uma matriz programática comum: bodo de leite, cantoria e tourada.

As imposições sanitárias dos Estados Unidos não permitem que o leite faça ligação directa do ubre ao estômago sem passar pela pasteurização e só por isto os bodos de leite não são réplicas autênticas dos dos Açores de antanho. Estes eventos são, também, marcados pelos cortejos de carros-de-bois, com chiado provocado, puxados por bovinos anatomicamente semelhantes às raças autóctones açorianas.

As cantigas ao desafio são apreciadas com um silêncio sepulcral e notável sentido de militância. Os despiques improvisados passam as fronteiras do entretenimento e transformam-se para os assistentes em puros actos de culto.

As touradas proporcionam tertúlias de aficionados, onde são discutidas e dissecadas as lides, comentadas as características comportamentais das feras e avaliados os méritos dos ganadeiros. Curioso é o caso de luso-descendentes, alguns só esporadicamente pronunciam vocábulos lusos, que por contágio de emoções assimilam o gosto pelos toiros e por arrastamento por todas as manifestações lúdicas tipicamente açorianas.    

Por tudo isto, podemos dizer sem medo do equívoco que os emigrantes portugueses na Califórnia, que sustentam esta simples análise, são os guardiães das antigas e genuínas festas populares açorianas, principalmente do Grupo Central.

 

José Eliseu