José Eliseu

O Mestre

Há pessoas que por muito que tentem fugir a protagonismos estão condenadas ao sucesso e à consequente imortalidade da sua fama. João Ângelo é um caso paradigmático.

O Mestre O Mestre Sem nunca cortar as suas raízes campesinas, é apreciado e idolatrado por muitos que têm a felicidade de ouvi-lo. Rosto imperturbável, olhar maroto, movimentos subtis enquanto actua, languidez aparente e voz agudizada transformam-no no maior ícone dos cantadores actuais. As estrofes que improvisa, normalmente jogralescas, transmitem a atenção com que observa e analisa o meio que o circunda. A sua sátira está sempre envolvida por uma enorme finura pelo uso engenhoso das figuras de estilo, principalmente a comparação. Defende a originalidade e é avesso ao plágio. Todas estas características aliadas à espontaneidade que apresenta em palco fazem dele o verdadeiro poeta do povo.

A circunstância não altera a forma de João Ângelo estar e o seu estilo de cantar. É fiel ao vernáculo e utiliza termos, que lhe chegaram por transmissão oral, já esquecidos pela esmagadora maioria das pessoas. É um repentista íntegro que não recorre à petulância para se impor. Canta com a mesma sagacidade e simplicidade com que fala. Por isso, é o único cantador popular que entrou no goto das elites.

 João Ângelo é um óptimo conversador. A sua criatividade leva-o a abrir muito parêntesis cómico sem, contudo, perder uma postura séria. Concebe trocadilhos hilariantes, joga com semelhanças lexicais e usa a ironia com magistralidade. É um homem convicto, sincero e honesto que, por sê-lo, não suporta os pérfidos, hipócritas e ignóbeis.

Tudo isto se consubstancia no melhor cantador de “As Velhas” de todos os tempos e no improvisador mais querido nos Açores e diáspora. Razões mais que suficientes para que lhe chamemos “O Mestre”.