José Eliseu

Rivalidades sem sentido

Rivalidades sem sentido Rivalidades sem sentido

 

 

A rivalidade entre São Miguel e Terceira é quase tão antiga como a própria história dos Açores. Ambas as ínsulas começaram a destacar-se pela demografia, arquitectura e produção agrícola, isto quando a fisiocracia era a doutrina económica prevalecente.

Angra torna-se a primeira cidade do arquipélago e sede de diocese na antecâmara do período inquisitório. A nova urbe e por inerência toda a ilha onde está inserida torna-se o centro do poder. São Miguel como ilha maior não gosta e vive em resignação compulsiva. O século XIX trouxe os primeiros impulsos autonómicos e a descentração das decisões políticas. Com a efectivação da autonomia o fulcro do poder político e económico fixa-se em Ponta Delgada. Agora é a vez da Terceira olhar de revés por atordoada pela perda dos privilégios outrora tidos.

 Duas ilhas rivais são, portanto, aquelas que têm as mesmas aspirações e que reclamam as mesmas vantagens por se considerarem com méritos semelhantes.

Outra coisa bem diferente é o bairrismo. Um bairrista é um defensor acérrimo dos interesses do seu bairro, freguesia, cidade, concelho ou ilha. Quando o bairrismo é intenso mas racional e se alicerça no respeito pelas diferenças pode até ser propulsor do desenvolvimento local; quando é exacerbado torna-se inconveniente e frívolo e depressa derrapa para a mesquinhez.

Este ano nas festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, dois grupos de cantadores e tocadores da Terceira foram convidados a participar no programa profano. Foi um intercâmbio artístico interessante que serviu para mostrar afinidades e contrastes melódicos, instrumentos com vários tipos de afino e modas típicas de cada terra. Louve-se este exemplo de sã convivência entre gente de duas ilhas rivais. O clima amistoso que envolveu o evento e a forma cordial como nós forasteiros terceirenses fomos recebidos confirma a máxima da canção do Rui Veloso “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa”.

 

JOSÉ ELISEU