Luiz Fagundes Duarte

A saudade é um toiro

A saudade é um toiro A saudade é um toiro

Vox Populi                                                             (7)

Luiz Fagundes Duarte

 

 

Rezam as crónicas que era mulherengo: pelo menos gostava de se lançar aos muros mais altos, onde nas touradas costumam florescer as rosadas matronas terceirenses, com elas fazendo das suas. E também que gostava da sua pinga: conta-se que entrava de rompante pelas tascas, de onde nas touradas não desapegam os bravos homens terceirenses, entre eles provocando enormes alvoroços. E tudo isso ele fazia, e mais façanhas, porque era ágil, alegre, de bom corpo, e, segundo ouvi, apetrechado de suas naturezas. Foi o mais famoso da sua geração.  

Mas, como dizia Fernando Pessoa, morrem jovens aqueles que os deuses amam. Mesmo que sejam toiros.

Morreu jovem, de morte súbita, antes de sequer fazer metade de tudo aquilo que era suposto ter feito se tivesse morrido no tempo certo: diz-se que, tendo dado para aí umas cinquenta cordas em nove anos de vida, seria de esperar que, se os deuses não fossem egoístas levando-o assim tão menino e moço desta vida descontente, viesse a bater a barreira das cem cordas – o que, pelas minhas contas, equivaleria a levar ao delírio umas cem mil pessoas, bastante mais do que a população toda da Terceira.

Teve direito a retratos nos jornais, em vida, e a sentidas elegias depois de morto.

E no entanto nunca teve a graça de um nome: era conhecido por 64. O que é coisa de espantar numa ilha onde – pelo menos antigamente – todas as vacas e bois tinham nomes – como Brilhanta, Carocho, Galanta, Estrela, Rosada, Formosa, etc., etc. –, se bem que, verdade seja dita, uma das mais finas recordações que guardo da infância tenha a ver com um toiro igualmente famoso e desnomeado: respondia por 90.

Na tourada seguinte à morte do 64, dada pelo seu criador, acho que foi nas Fontinhas, os pastores da corda apresentaram-se todos de braçadeira preta, em sinal de luto.