Luiz Fagundes Duarte

O que parece, é

O que parece, é O que parece, é








Vox Populi                                                             (8)

Luiz Fagundes Duarte

 

 

 


 

        Lá dizia o outro que, em política, o que parece, é. Esse “outro” chamava-se Salazar e geralmente sabia muito bem do que falava.

         Lembrei-me desta frase lapidar por mor de uma ameaça que o actual presidente da República, na entrevista que deu ao jornal “Público”, acaba de fazer à Assembleia da República: no caso de esta aprovar uma nova versão do Estatuto dos Açores que não corresponda àquilo que ele pensa que deva ser a nossa autonomia regional, ele, presidente, poderá recorrer ao veto político do diploma.

Para além desta ameaça, que faz sob a forma retórica da possibilidade, o presidente deixa ainda cair uma suspeita sobre a lisura de procedimentos da Assembleia Legislativa e da Assembleia da República: “a questão que então se pode colocar é por que motivo é que a revisão do estatuto só foi feita em 2008, próximo do acto eleitoral? Porque não foi feita em 2005, ou 2006, ou 2007? Não sei, apenas constato que foi escolhida a proximidade das eleições” (além da evidente falta de chá, que se compreenderia numa refrega político-partidária, mas nunca saída da boca de um presidente da República falando enquanto tal, Cavaco Silva parece ignorar quanto tempo levou o diploma a ser preparado, discutido, alterado, relatado e votado, nos dois parlamentos, até lhe chegar às mãos).

Sem querer comparar Cavaco Silva a Salazar – estamos em democracia plena, e o presidente da República é o seu órgão máximo, que respeito –, a verdade é que também se poderia dizer que “parece” que o actual presidente não terá sido ingénuo ao fazer esta ameaça, e ao levantar esta suspeita, a pouco mais de um mês das eleições legislativas nos Açores.

Até porque, a avaliar pela maneira como o PSD anda a babujar em todo este processo, e tendo em conta os olhares diferentes com que, publicamente, o actual presidente da República olha para o que se passa nos Açores e na Madeira em matéria de prática da Autonomia, será caso para se dizer que, nesta como em muitas outras matérias na política, aquilo que parece, é.