Luiz Fagundes Duarte

Reivindicação em Kiev

Reivindicação em Kiev Reivindicação em Kiev Crónica                                                       (13)
Luiz Fagundes Duarte



A Mykhaila Hrushevs’koho é a grande rua do poder em Kiev: subindo das bandas do Arsenal, muito perto do grande Mosteiro do Lavra, que foi um dos grandes senhorios da região, nela encontramos, entre outros palacetes construídos pela aristocracia do século XIX e depois apropriados pela nomenclatura soviética, aquele que foi a sede do Comité Central do Partido Comunista (hoje é a Embaixada da China); depois, a rua ladeia o Parque Mariins’kyi, onde se encontram alguns dos monumentos patrióticos modernos mais importantes da cidade, o Palácio Mariins’kyi, que foi a residência local dos czares da Rússia, o Verkhovna Rada, que é o Parlamento, construído para sede do regime soviético na Ucrânia, a sede do Governo, onde de antes funcionava o Comissariado do Conselho do Povo – e, naturalmente, o Estádio do Dynamo de Kiev, ostensivamente erguido nas traseiras do Palácio Imperial.
    Como todas as grandes avenidas e ruas de Kiev, a Mykhaila Hrushevs’koho está afogada em trânsito – e por ela desfila um dos parques automóveis mais impressionantes que eu já vi: exibindo-se pelo meio dos carros utilitários, os Bentleys, os Lexus, os Mercedes, e um ou outro Rolls Royce atraem-nos os olhares e despertam-nos algumas dúvidas: para um país em bancarrota, que é governado por novos milionários como se fosse um negócio privado (no parlamento estão fortemente representados dois partidos pessoais: o Bloco Yulia Tymoshenko, que é aquela primeira-ministra de trancinhas loiras e ar de catequista que às vezes vemos na televisão, e o Bloco Lytvyn, que é o presidente do Parlamento), não será difícil concluirmos quem é que vai lá dentro…
    Mas, e quem vai cá fora?
    Das portas do Rada, onde me encontro em missão parlamentar, vejo uma pequena procissão que, em passo estugado, sobe a Hrushevs’koho. São umas vinte pessoas em fila indiana pelo eixo da via, por entre os carros indiferentes: as primeiras da frente, que são homens, levam pendões erguidos, como muitos que vi pelas igrejas e catedrais da cidade, as outras, que são homens e mulheres, erguem nos braços ícones dos santos do cânone ortodoxo. Vêm vestidos de povo, como povo que são, e os seus rostos parecem talhados à navalha em madeira. A encerrar o cortejo, uma velha de bengala e ar sofredor, de roupas negras que lhe tapam o corpo e a cabeça.
    Segundo me explicou um deputado do Bloco Yulia Tymoshenko, trata-se de um grupo de ortodoxos russos, rebeldes à igreja ucraniana, que reivindicam sabe-se lá o quê.
Talvez um santo que os ajude.