Luiz Fagundes Duarte

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Representar Representar Crónica                                                       (12)
Luiz Fagundes Duarte



É de louvar a preocupação da RTP/Açores em dar conta dos carnavais de todas as ilhas, num saudável entendimento de que quem dá o que tem a mais não é obrigado. Mesmo que isso obrigue (da parte da RTP) a um difícil trabalho de identificação daquilo que, pelas nossas ilhas abaixo, cabendo na categoria de “Carnaval” – ou melhor, de Entrudo –, possa ter um mínimo de interesse jornalístico que justifique o investimento.
    O resultado, como seria de esperar, é tão diverso como diversas são as realidades das ilhas. Mas, em cada ilha, espera-se que a notícia que a RTP fizer do Entrudo local prove aquilo que é uma certeza inquestionável: que, nessa ilha, o Entrudo é animado e as pessoas divertidas, e que quem lá não está só tem a perder.
    E lá vamos nós assistindo a um impressionante esforço de equidade – ou, pelo menos, de equilíbrio – dos profissionais da RTP para, sem melindrarem ninguém, darem ao Baile do Coliseu de Ponta Delgada, às Fantasias da Graciosa, ou às Danças e Bailinhos da Terceira, o relevo que todos merecem enquanto manifestações de identidade cultural de cada uma das ilhas.
Por minha parte, enquanto espectador, agradeço.
    E agradeço porque, ao proceder assim, a RTP consegue dar-nos, em simultaneidade e com ubiquidade, um retrato ao vivo do que somos nós enquanto cidadãos do pequeno mundo que é cada uma das nossas ilhas. Ou, pelo menos, daquilo que aqueles que têm voz (ou seja, que mandam) em cada uma das ilhas conseguem impor para fora (isto é, para os outros) como sendo o essencial da identidade local – e que, supostamente, será melhor do que o da ilha ao lado.
    É assim que vemos os pares de bailarinos de salão (elas, de vestido comprido, sapatos altos, jóias, e eles de smoking) evoluindo na grande sala do Coliseu Micaelense, ao som de valsas e de sambas – fazendo-nos crer que São Miguel é isto. É por este prisma, também longe do povo que se diverte nas ruas, que vemos, na Graciosa, os bailes oficiais por onde se exibem as riquíssimas Fantasias.
    E depois temos o Entrudo da Terceira, que nestes dias se transforma num imenso palco onde todos, com a arte que Deus lhes deu e uma alegria de viver que só visto, exibem livremente aquilo que afinal é a essência do humano: a capacidade de representar.