Luiz Fagundes Duarte

Um nó na garganta

Um nó na garganta Um nó na garganta

Vox Populi                                                             (6)

Luiz Fagundes Duarte

 

 

Um nó na garganta

 

Coube-me na sorte ser um dos passageiros do último voo do derradeiro avião A310 da frota da TAP. Não teria dado por isso se o comandante, ainda antes de levantarmos voo, não tivesse explicado aos passageiros, com um nó na garganta, que éramos todos figurantes de um momento histórico.  

Entendi-o, e lá lhe correspondi com a minha fungadela.

         Afora as razões do comandante – que agora terá que aprender a comandar aviões de outros tipos –, o acontecimento fez-me pensar em como, afinal, a nossa vida está cheia de ligações afectivas a objectos que, apesar de fazerem parte do nosso dia-a-dia, quase nem damos por eles: eu, por exemplo, nem me tinha apercebido de que a TAP estava a desfazer-se dos grandes A310, apesar de ao longo dos anos neles ter viajado com enorme frequência. E fez-me ainda pensar em como alguns objectos, nos quais sempre vimos uma função utilitária e instrumental, podem afinal fazer parte da nossa vida, como se fossem um amigo ou um familiar.

Fez-me também lembrar uma cena que ainda há pouco tempo presenciei na China profunda.

Era numa aldeia da província de Si’Xuan, habitada por camponeses descalços, sujos, esfarrapados, cadavéricos e tristes, que ainda fazem aquilo que, sem descontinuar, sempre fizeram os seus antepassados: enterrados na lama, cultivam arroz.

Tendo sido convidado a entrar numa das casas, habitada por quatro gerações de chineses descalços, sujos, esfarrapados, cadavéricos e tristes, onde o objecto mais valioso era um televisor a preto e branco e de canal único, e o mais visível era o famoso retrato de Mao que todos conhecemos – lá presenciei a miséria digna de uma família rural chinesa e do seu amado porco.

De todos os membros da família, o porco pareceu-me o mais feliz lá na sua pocilga coberta, forrada de azulejos brancos, com janela para a rua e torneira de água corrente – num violento contraste com os cubículos de chão de terra batida, sem janelas nem móveis, onde bisavô, avós, netos e bisnetos passam as suas tristes noites.  

Quando chegar o dia da matança do porco, aquela família há-de ter o seu nó na garganta.