Mota Amaral

Exigir resultados à União Europeia

Exigir resultados à União Europeia Exigir resultados à União Europeia


Ainda a crise europeia não bateu no fundo e já do topo da eurocracia lançam projectos audaciosos de novas metas de união política, com efeito a partir das eleições para o Parlamento Europeu, previstas para 2014.

Perante a incapacidade comprovada dos partidos políticos, os actores decisivos na cena europeia são hoje os Governos Nacionais, cada vez mais em exclusivo, eclipsando as modestas tentativas de afirmar um protagonismo parlamentar. Na fase presente, avulta o Directório germano-francês, com óbvia desvalorização do papel dos outros membros do Conselho Europeu, a começar pelo seu Presidente, nem falemos então da Comissão Europeia.

Esta deriva, perigosíssima, decorre do Tratado de Lisboa e acelerou vertiginosamente com a chamada crise das dívidas soberanas. Dúzias de “reuniões históricas” da dupla Merkozy, dos Chefes de Estado e de Governo, dos Ministros das Finanças do Eurogrupo, ao longo dos últimos dois anos, mantêm a União à beira do abismo e geram nos cidadãos desconforto e descrença, senão mesmo desprezo e até repúdio para com os dirigentes legítimos dos seus países e da UE.

No discurso dominante, que venera e serve o dinheiro, parece que tudo se reduz a pagar as dívidas, ressarcindo os credores, mesmo os especuladores, e cortando o que for preciso nos serviços públicos, nos benefícios sociais e até nos direitos dos cidadãos.

Mas mesmo que se consiga, em todos os estados-membros da União, estabilizar a situação das dívidas soberanas, persiste o problema de fundo, que é o da competitividade da economia europeia no mercado global. Reduzidos a meros consumidores, que se pretende manter satisfeitos com preços baixos, os cidadãos já nem se indignam com o dumping salarial e ecológico que induz a deslocalização da produção, potenciando os lucros dos empresários e dos detentores do capital, enquanto lança no desemprego e na miséria milhões de pessoas, dentro das nossas próprias sociedades.

Estas por seu turno, defrontam-se com as consequências de um desemprego crescente, vêem empobrecer a classe média e agravar-se o fosso e a fractura social, envelhecem a olhos vistos, têm de recorrer à imigração para se manterem em funcionamento nos patamares de bem-estar alcançados e depois espantam-se com a imigração clandestina e com os sinais assustadores de xenofobia e até de racismo, já com expressão política em partidos populistas alcandorados, em alguns países, aos parlamentos e às coligações governamentais.

Com tantos e tão graves problemas por resolver, parece ilusório pedir agora entusiasmo aos cidadãos europeus para um novo e decisivo avanço no processo de integração. Discutir nesta altura aspectos institucionais, que mal disfarçam novas lutas pelo poder, é rematada tolice. Que a UE volte a apresentar resultados, ao menos na promoção do emprego, sobretudo entre os jovens, deve ser a primeira prioridade da nossa exigência cívica. Depois então se verá!