Mota Amaral

Um começo de ano sombrio

Um começo de ano sombrio Um começo de ano sombrio

O novo ano desponta sombrio. Os problemas do nosso País, em vez de se resolverem, parecem tender a agravar-se.

O OE 2011 aperta de tal modo os cidadãos, as famílias e as empresas que a consequência só pode ser uma dura recessão. Com o rendimento disponível reduzido pelo peso dos impostos, o consumo privado vai quebrar; devido aos cortes da despesa anunciados, o consumo público também; perseguidas pelo Fisco, muitas empresas vão fechar as portas, aumentando a multidão dos desempregados. Ficará assim em boa parte frustrado o desejado aumento das receitas públicas. E a redução dos benefícios que entrelaçam a incipiente rede social está trazendo de volta manifestações da nossa pobreza ancestral, que já julgávamos terem sido erradicadas para sempre.

A credibilidade externa do nosso País, a avaliar pelos sinais que nos transmite a grande imprensa internacional, está pelas ruas da amargura e isso não pode deixar de influenciar negativamente os mercados financeiros.

Ora, neles é preciso contratar muitas dezenas de milhares de milhões de euros, em renovação de créditos e em créditos novos, para assegurar o financiamento do Estado e da economia portuguesa ao longo de 2011. A subida das taxas de juro apresenta-se assim como natural e até inevitável.

Neste contexto tenebroso, o recurso ao FMI será o atestado do falhanço do Governo; a saída do euro seria uma catástrofe nacional!

Entretanto, a dependência portuguesa dos credores externos reduz a nossa capacidade de afirmação no âmbito europeu e internacional.

A crise evidente da União Europeia vai reclamar providências e deveríamos ter uma palavra nossa a dizer nesse domínio, em favor da democraticidade das instituições, da igualdade de todos os estados-membros, da coesão económica e social como grande desígnio europeu. Mas onde está a doutrina portuguesa sobre estas matérias e a autoridade política para a propugnar, quando Parlamento e Governo vivem no fio da navalha da bancarrota nacional e a campanha para as eleições presidenciais, por acção dos que querem distrair os cidadãos dos verdadeiros problemas do nosso País, se afundou no atoleiro de casos ou pseudo-casos pretensamente conexos com inquietantes fraudes bancárias? E mesmo que assim não fosse, quem nos prestaria atenção, se os responsáveis europeus se habituaram já a olhar-nos de soslaio como incómodos incumpridores, quando não a dar-nos reprimendas e receitas para os nossos males?

Quanto ao panorama mundial, onde Portugal passa a ter responsabilidades especiais como membro do Conselho de Segurança da ONU, que liberdade teremos para enfrentar, se necessário, os países por onde andamos agora, de chapéu na mão, a pedir que nos emprestem dinheiro em condições favoráveis?

A ruína financeira afecta obviamente a própria independência nacional e é este afinal, por desvario ou incompetência, o balanço arrasador da governação socratiana.

A gestão das melindrosas consequências políticas da crise em que nos enredou o Governo do Primeiro-Ministro José Sócrates é um desafio ao discernimento e ao sentido de Estado do Presidente Cavaco Silva, relegitimado para um novo mandato nas recentes eleições presidenciais.