Osvaldo Cabral

A ANA a estrangular a economia



Há empresas nacionais e internacionais que se instalaram nos Açores, explorando muito valor acrescentado da nossa economia, mas acrescentando pouco ao investimento nas ilhas.
A indústria de lacticínios tem alguns exemplos, que abordaremos noutra oportunidade.
Hoje, o caso mais escandaloso é o da ANA, que explora alguns aeroportos açorianos.
A empresa, que era pública e geria os aeroportos portugueses, foi vendida pelo governo de Passos Coelho, em 2012, à empresa francesa Vinci, por 3,08 mil milhões.
Foi uma privatização muito contestada e realizada "sem qualquer tipo de condições" impostas pelo governo português, o que se revelou um tremendo erro, como aquele que estamos agora a pagar nos aeroportos explorados por aquela empresa na nossa região.
Quando a ANA foi vendida, os aeroportos estavam em crescimento, incluindo os dos Açores, que dispararam dois anos depois com a liberalização do espaço aéreo (por ironia, graças, também, ao governo de Passos Coelho).
Em menos de uma década o aeroporto de Ponta Delgada praticamente triplicou o movimento de passageiros.
Em 2013, primeiro ano económico para a nova dona do aeroporto, os passageiros nacionais desembarcados em Ponta Delgada eram pouco mais de 196 mil, aumentando em 2019 para 583 mil. Os embarcados também aumentaram de 199 mil para 589 mil.
Nos voos internacionais, os desembarcados subiram de 104 mil para 160 mil.
Não é preciso olhar para os números para se perceber que há uma diferença abismal entre o movimento de passageiros de há uma década e de agora. Basta frequentar os aeroportos para se ver a olho nú.
No 4º trimestre do ano passado, o número total de passageiros desembarcados nos aeroportos dos Açores aumentou 138,5%, em termos homólogos, sendo a variação anual de 85,1%.
É certo que a pandemia influenciou a estatística, mas não é preciso perceber de aeronáutica para constatar que os números de antes da pandemia vão a caminho de serem repostos e, quiçá, ultrapassados.
Já no passado mês de janeiro deste ano desembarcaram em Ponta Delgada 35 mil passageiros, quando no ano anterior tinham sido apenas 14 mil.
O número de operações, já programadas e anunciadas, de várias companhias internacionais, para este Verão, no aeroporto de Ponta Delgada, fazem adivinhar que vamos ter dias complicados nesta infraestrutura.
Ninguém melhor do que o Presidente da SATA para prever o que vem aí: "“O aeroporto de Ponta Delgada não tem capacidade para processar, à hora a que os voos internacionais podem chegar, todos os passageiros que vão passar por lá. Aquilo vai rebentar por todos os lados, vai haver chatice da grossa e o produto vai ser péssimo”.
Perante todo este cenário, o que fez a ANA?
Nada!
Deitou-se a dormir durante a pandemia, época de menor movimento, quando devia ter aproveitado para efectuar os investimentos que se impõem no aeroporto de Ponta Delgada.
Agora vem anunciar que vai realizar "soluções temporárias" e desculpa-se pelo desmazelo com a espera pela reestruturação da SATA.
Este argumento de empurrar com a barriga é recorrente com tudo o que seja Açores, como já foi e está sendo, há vários anos, com a justa e prometida ampliação do aeroporto da Horta.
O previsto crescimento dos aeroportos portugueses tem sido um filão para a Vinci, contribuindo para o enriquecimento do grupo.
No ano passado, através da sua concessionária Vinci Airports, que gere os aeroportos portugueses, lucrou 2.597 milhões de euros, mais do dobro do que em 2020, quando registou 1.242 milhões de euros.
Portanto, não é falta de dinheiro.
É falta de vontade.
Quando um governante regional vem dizer que está à espera, há vários meses, de uma resposta da empresa para reunir sobre este assunto, o que o Governo Regional tem de fazer é pôr-se à porta dos senhores administradores da ANA, levando consigo a comunicação social, para demonstrar a má vontade de uma empresa que deve muito aos Açores.
A moleza por parte da tutela ajuda pouco.
Mexam-se!

Março 2022
Osvaldo Cabral