Osvaldo Cabral

A escassez de talentos



Nenhum país, nenhuma região, se faz sem gente.
E, no mundo actual, global e em rede, altamente qualificado, nenhum país ou região irá longe se, entre a sua gente, não souber reter os seus talentos.
Ora, os Açores sofrem, gravemente, dos dois males: está a ficar sem gente e, pior do que tudo, sem talentos.
O alerta nacional veio esta semana, em forma de estudo, com esta brutalidade: Portugal é o segundo país do mundo com mais escassez de talento. Pior do que nós, só o Taiwan.
O Talent Shortage Survey 2022, do ManpowerGroup, divulgado esta semana, revela que 67% dos empregadores portugueses têm alguma dificuldade em encontrar os candidatos certos e 18% sente muita dificuldade na contratação, o que acumula um valor para a escassez de talento de 85% e que vem representar um acentuar da tendência face a 2021, com um aumento de 15 pontos percentuais.
Esta escassez é praticamente transversal a todas as actividades, mas sobretudo nas mais exigentes e que requerem mais competências, incluindo o sector das Tecnologias da Informação, Telecomunicações, Comunicação e Media.
Segundo o estudo, a escassez está presente em organizações de todas as dimensões, mas são as Grandes e Médias Empresas as mais afetadas, com 89% e 86% dos empregadores, respectivamente, a revelarem dificuldades na contratação.
Este problema não é novo no país e, nos Açores, é uma autêntica dor de cabeça.
Basta falar com os empresários e os responsáveis pelas escolas na região.
O problema é estrutural em Portugal e foi agravado com as políticas de apoio social durante a pandemia.
Recorde-se, no entanto, que Portugal vai na segunda crise profunda em pouco mais do que uma década e que em nenhuma estava preparado para o choque.
Com estruturas pouco competitivas, a opção de muita gente foi circular para outros países, porque, afinal, existe livre circulação na Europa.
No caso dos Açores não foi diferente.
Com um saldo migratório negativo entre os últimos dois censos, há muito que devia ter soado as campainhas de alarme nos gabinetes dos nossos governantes e responsáveis pelas políticas públicas.
Isto quer dizer que em qualquer situação de retoma, os recursos humanos vão escassear porque emigraram, sendo que os menos capazes e menos habilitados se acomodaram em programas sociais, que é o que temos vindo a fazer ao longo dos últimos anos.
Programas sociais, ocupacionais, RSI e por aí fora, não faltam iniciativas de apoio à preguiça e à falta de motivação para nos qualificarmos.
Esta é a região onde a indústria extractiva do subsídio e dos apoios sociais à preguiça levam a tornar-nos numa das regiões menos competitivas do mundo.
Com efeito, o país está a perder o comboio da competitividade e os Açores também.
A prazo paga-se cara a falta de medidas adequadas para a fixação de pessoas de forma sustentável, isto é, empregos privados sustentáveis.
Para isso é preciso um sector privado saudável e um poder público menos estatizante e esbanjador.
Sim, o problema também está aqui: andamos, há vários anos, a esbanjar recursos num monstro público que criamos nestes anos de Autonomia falida, com uma gigantesca máquina de administração pública e um sector empresarial público insustentáveis.
Temos uma galáxia pública que custa, todos os anos, mais de 500 milhões de euros só em despesas de pessoal, que já absorve - imagine-se! - 85% das receitas fiscais.
Alimentar esta enorme teia pública retira-nos possibilidade de mais investimento no sector produtivo ou social, cortando a criação de riqueza e de empregos mais estáveis.
Continuamos com a média de salários abaixo da média nacional e isto não motiva ninguém, muito menos jovens talentosos a sair das academias.
Nós precisamos, a todo vapor, de mais e melhores recursos humanos.
Como se consegue isso? Com melhores políticas económicas no mercado, menos políticas de cariz estatal, viciado por clientelas, e mais formação para o mercado, a todos os níveis, com particular realce para competências avançadas ao nível, pelo menos, de licenciatura.
Não é preciso ser génio para perceber que o segredo está na Educação e na aquisição de competências.
Enquanto continuarmos a enterrar milhões nas iniciativas públicas, nos PPR’s maioritariamente dirigidos ao sector público, nas bazucas que não chegam aos empreendedores e nas Agendas apenas para os mesmos de sempre, esta região estará sempre na cauda das piores da Europa.
É por isso que já vamos com uma dívida bruta acima dos 3 mil milhões de euros e vamos contrair este ano mais 400 milhões de dívida, numa trajectória que é insustentável, conforme tem vindo a alertar o Tribunal de Contas.
E mesmo assim não conseguimos debelar a imensa pobreza que vai por esta região, atingindo um terço da população.
Com indicadores assim, agravamos ainda mais a escassez de talentos e de massa crítica.
É preciso apostar mais na promoção social e qualificada das nossas gentes, apesar da ilusão de estarmos melhor, quando os outros estão muito melhor do que nós.
É muito bonito ouvir discursos a dizer que crescemos, quando o que nos devia envergonhar é que os outros, até com menos recursos do que nós, cresceram muito mais do que nós e mais depressa do que nós.
Sem mudanças profundas não sairemos disto.
É um futuro sombrio para qualquer jovem talentoso e ambicioso.
Por isso, estamos a perdê-los.

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TEMOS SATA - O pior que poderia acontecer no processo de reestruturação da SATA, como alguns temiam, era a Comissão Europeia acabar com a Azores Airlines, com o argumento da falência e de que já temos uma empresa pública de transporte aéreo em Portugal que faz praticamente as mesmas rotas.
Felizmente não aconteceu. Vamos continuar a ter a SATA, embora com algumas limitações, a começar pela perda de algumas rotas, a privatização da maioria do capital da Azores Airlines, alienação da empresa de ‘handling’, redução de custos e criação de uma nova ‘holding’, certamente para separar a Air Açores da contaminação da Azores Airlines.
É, sem dúvida, uma boa notícia no meio de tantos receios.
A bem dizer, é uma reestruturação que não traz grande novidade, porquanto todas aquelas alternativas já tinham sido sugeridas, há alguns anos, por quem acompanhava, com preocupação, a actividade desastrosa da companhia.
Em Julho de 2019, já a Câmara do Comércio e Indústria dos Açores sugeria exactamente aquelas medidas, acrescidas de uma revisão das Obrigações de Serviço Público inter-ilhas e das três ‘gateways’ não liberalizadas.
O reverso de tudo isso é que todos nós, contribuintes açorianos, vamos ter que pagar uma factura bem gorda: são mais de 400 milhões de euros que nos vão sair da algibeira.
É a rica herança deixada pelos governos do PS, que, se tivesse vergonha, nem se pronunciava sobre esta reestruturação.
Tudo o que a Comissão Europeia decidiu agora podia ter sido evitado se os sucessivos governos socialistas tivessem dado ouvidos aos inúmeros alertas, em devida altura, sobre a gestão incompetente e ruinosa que estava à vista de todos. Será, agora, uma nova vida para a SATA e uma nova oportunidade para corrigirmos o que de mal se fez à companhia, repô-la no seu devido lugar e voltar aos tempos em que a transportadora respirava pujança e rigor nas contas. Será preciso uma boa gestão e uma boa equipa para enfrentar o novo caminho agora traçado pela Comissão Europeia.
A SATA volta a ter asas!

Junho 2022
Osvaldo Cabral