Osvaldo Cabral

A fadiga eleitoral




Há um sinal eleitoral preocupante que deve ser retirado das eleições autárquicas de domingo: o desinteresse dos eleitores nos Açores é maior do que no resto do país.
Há mesmo um contraciclo, que já vinha sendo notório nas eleições para a Assembleia da República e até nas presidenciais. Enquanto que a abstenção baixou em todo o país em quase 2%, nos Açores cresceu praticamente 0,5%.
Em 2013 houve 104.053 eleitores que não foram votar. Domingo, foram mais 2.318 que se juntaram aos abstencionistas.
Se juntarmos estes números aos votos brancos e nulos, o cenário é ainda mais cinzento.
Este desinteresse de quase metade da população eleitoral é revelador da pobreza mobilizadora que se vive na nossa Região e só assim se compreende que, nos indicadores da participação cívica a nível das regiões europeias, estejamos na cauda da tabela.
É verdade que a abstenção está distorcida, devido à desactualização dos cadernos eleitorais, mas isto não explica tudo, sobretudo em eleições autárquicas, em que o poder mobilizador é muito maior.
Parece haver aqui um fenómeno de fadiga eleitoral, fruto do domínio avassalador dos partidos políticos na sociedade.
É por isso que os chamados pequenos partidos, mesmo com um conjunto de propostas mais inovadoras, não se conseguem impor no panorama político regional, porque o raio de influência junto das populações, sobretudo nas zonas rurais, é praticamente nulo.
A rede aparelhística que se espalhou por estas ilhas, com Secções e Núcleos de partidos, associações, organismos, clubes, casas do povo e outras instituições públicas completamente dominadas por interesses partidários, onde impera algum caciquismo nada recomendável, é uma das principais causas para o afastamento dos cidadãos.
O triste espectáculo que foi a tentativa de domínio partidário do Conselho de Ilha de S. Miguel ou, mais recentemente, os episódios caciqueiros à volta da Unidade de Saúde da Ilha do Pico, são apenas exemplos daquilo que há de pior na nossa política açoriana, provocando a repulsa dos eleitores e o consequente desinteresse pela actividade política. Se este cenário não for alterado, é a democracia que perde e o sistema apodrece.
Há que mudar rapidamente todo o sistema eleitoral nos Açores, porque os sinais de fadiga são cada vez mais evidentes. Temos de criar outros mecanismos de maior responsabilização por parte dos eleitos, de modo a que os eleitores possam julgar directamente quem os representa.
As autárquicas de domingo, por exemplo, foram reveladoras para alguns deputados e membros do governo que lideraram listas às Juntas ou Câmaras Municipais e perderam.
Se não conseguem ser eleitos pela população das suas comunidades, como é que seriam eleitos para o parlamento se fossem escolhidos pelos eleitores?
Noutro âmbito desta análise, as autárquicas de domingo deixam também outros sinais de reflexão para os principais partidos da Região.
Desde logo o PS, que foi, sem sombras de dúvidas, o grande vencedor das eleições, mas perdeu, mais uma vez, parte da sua base eleitoral.
Vasco Cordeiro viu fugir nestas autárquicas mais de 2.500 eleitores, menos do que nas regionais, mas o suficiente para explicar que o desgaste da governação também terá reflexos junto das populações.
O PSD, ao contrário, reforçou a sua base de votação em mais de 9 mil eleitores, mas isto também não é boa notícia para a liderança de Duarte Freitas, que tinha perdido milhares de eleitores nas regionais do ano passado.
E porquê? Porque revela que os candidatos autárquicos têm mais valor do que os candidatos regionais do PSD.
As vitórias expressivas de José Manuel Bolieiro e de Alexandre Gaudêncio dão-lhes uma autoridade reforçada no interior do partido e deixam adivinhar uma disputa, certamente interessante, sobre a liderança do PSD, no dia em que os respectivos militantes entenderem que chegou ao fim o reinado de Duarte Freitas. ~
Do lado do PS, parece-me que Ricardo Rodrigues é o mais bem posicionado, entre todos os autarcas socialistas, para ambicionar à substituição de Vasco Cordeiro em 2024.
O autarca de Vila Franca, que reforçou também a sua popularidade, está dar o exemplo de como se pode reiniciar uma carreira política, dispensando os lugares na governação ou na Assembleia da República, pese embora a imagem pouco abonatória que deixou nas polémicas em que se envolveu e que o machucaram politicamente.
Em termos de balanço geral, Vasco Cordeiro é o vencedor destas eleições porque conseguiu manter a maioria das autarquias, embora estivesse à beira de um ataque de nervos se também perdesse Horta e Santa Cruz da Graciosa, que passaram a prova de fogo por uma unha negra.
Ao mesmo tempo é o responsável pelo fracasso da estratégia escolhida para Ponta Delgada, apostando de novo num membro do governo, que nem conseguiu melhorar o resultado obtido há quatro anos por José Contente.
Enquanto o PS não fixar os seus candidatos na Vereação, percorrendo um caminho de oposição construtiva e insistente, será difícil obter melhores resultados.
Esta história de, após a derrota, fugir aos compromissos com os eleitores, para se refugiarem em lugares públicos mais apetecíveis, só prejudica a imagem do PS e será outra das causas para o seu desgaste eleitoral nestes últimos anos.
Ainda a nível partidário, Duarte Freitas é um dos derrotados da noite, porque coleciona mais uma derrota sob a sua liderança, apesar do PSD ter ganho Nordeste ao PS.
E o facto de ter perdido muitas Juntas de Freguesia, no concelho de Ponta Delgada, para o PS, também é sinal de má estratégia na escolha dos candidatos e do trabalho a nível de bases.
Os restantes partidos não têm expressão eleitoral, como já é costume, com destaque para o CDS, que é varrido em Ponta Delgada, acantonando-se, cada vez mais, na Terceira, sem visão regional.
Ainda em S. Miguel, saliente-se as vitórias expressivas do PS na Povoação e na Lagoa, com mérito para os respectivos candidatos, mas também muito demérito do PSD na escolha das suas candidaturas, todas com perfil fraquíssimo.
O caso de Nordeste – que acabou por ser o caso da noite – é quase uma cópia do que aconteceu com a Câmara da Ribeira Grande em 2013.
A somar às dificuldades financeiras do município, a gestão política arrogante e desastrada do seu Presidente, completamente afastado das populações, ditou aquilo que se suspeitava.
Ricardo Rodrigues, na noite eleitoral, deixou escapar uma confissão ao dizer que já havia em entendimento anterior com os autarcas do PSD para o caso de empate de municípios em S. Miguel, com vista à eleição da presidência da Associação de Municípios, o que só demonstra que o PS já esperava a derrota em Nordeste.
E quanto à Associação de Municípios, naturalmente que o PSD, tendo as Câ- maras maiores de S. Miguel, com muito mais população, tem todo o direito em reivindicar a presidência.
Francisco César já percebeu isso e prontamente sugeriu que é o PSD que deve assumir esta presidência, pelo que não faz sentido a proposta de Ricardo Rodrigues em dividir o mandato por dois anos entre os dois partidos.
Terminada a contenda, resta agora a todos os eleitos assumirem os anunciados compromissos com as suas populações, porque os desafios que vão enfrentar não são nada fáceis, sobretudo em muitos municípios onde se regista uma forte desertificação e uma enorme falta de recursos que promova a inovação, em todos os sectores, que se pretende nos dias de hoje.
Mesmo que para isso tenham a humildade de aceitar as boas propostas dos opositores, a começar por Ponta Delgada, onde apareceu um conjunto de ideias inovadoras, de muitos quadrantes, que são de aproveitar.
Daqui a quatro anos os açorianos saberão, mais uma vez, julgar.

Outubro de 2017
Osvaldo Cabral