Osvaldo Cabral

Abençoadas eleições!



O povo é sábio: devia haver eleições todos os anos... pelo menos aqui nos Açores.
Quando queremos ver um governo a funcionar em modo frenesim, é no ano das eleições.
Os nossos governantes regionais sabem a lição e mantêm-na estudada de quatro em quatro anos. É um ProSucesso.
Já andam por aí a todo o vapor (verdadeiramente, é mais de avião).
São inaugurações à pressa, lançamentos de primeiras pedras (nisto somos verdadeiros especialistas, pois vivemos na terra da... bagacina), distribuição de benesses nas estratégicas visitas estatutárias às ilhas, visitas frequentes aos idosos, creches e beneficiários do RSI à espera da piedosa esmola da habitação social ou, ainda, as assinaturas de contratos e protocolos de cooperação, que rendem sempre alguns trocos às instituições submissas.
Vasco Cordeiro e Andrea Cardoso são, em todos os anos eleitorais, os peso-pesados desta estratégia social e, como se tem visto, glorificadora do estado absoluto.
É só contar, desde há um mês para cá, quantos lares e creches já visitou a Secretária da Solidariedade.
Nada de perder a pedalada. Que isto de beijar velhinhos e criancinhas este ano vai contra as normas da virose.
Não há beijinhos, mas há rosas.
É o caso da SATA, que subitamente desabrochou antes de apresentar o tão aguardado Plano de Negócios.
Num regime de contenção de custos, onde até cortou a rota das Canárias, eis que alguém acordou numa manhã de nevoeiro, como se estivesse no miradouro do Monte Brasil, e viu ao longe, talvez até ao ilhéu das Cabras, a solução para o turismo da ilha Terceira.
Os operadores privados não quiseram Madrid mas uma transportadora rica como a nossa vai sofisticar isso ainda mais: vamos para Paris!
‘Paris, mon amour’, aí vamos nós.
Faz todo o sentido, a cidade das luzes para uma região que navega na escuridão e uma companhia com um desempenho desastroso a querer disfarçar-se nesta aventura de Golias.
Vão faltar aviões? Como já se prevê no verão para Faial e Pico?
Sem problemas, recorremos à cábula do costume, contratando a ‘Hifly’, mais ACMI’s, mais prejuízos, mais lamúrias nos relatórios anuais e fica tudo explicado: paga Zé!
A TAP a cancelar milhares de voos devido à quebra de reservas e nós a criarmos novas rotas, até para lugares onde há mais de 1.400 casos de coronavírus, 25 mortes, escolas encerradas e o que mais virá. Lindo mercado para importar turistas.
Mas gente rica, como a SATA, é outra coisa.
Já todos percebemos que o Governo Regional meteu água na operação de Madrid para a Terceira.
Devia ter reformulado a operação, chamar os privados e encontrar uma solução em colaboração com os operadores do sector.
Como não o soube fazer, à semelhança do falhanço com a Delta Airlines, tinha que arranjar rapidamente uma saída a poucos meses de eleições, para não ser castigado na Terceira.
Para corrigir a desgraça, obriga então a SATA a ir para Paris.
A nossa transportadora, de novo, como instrumento eleitoral.
É uma rota política e já vimos este filme há uns anos, quando Vasco Cordeiro ordenou a companhia a voar para tudo o que era possível para encher os hotéis nos dias de crise.
Todos sabemos, também, como isto acabou: uma SATA falida, enterrada em dívidas e com todos nós, mãos nos bolsos, uma à frente e outra atrás, à espera da factura final (que há-de vir depois das eleições).
Uma administração que começa assim, não vai longe.

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OPS! O CORONAVÍRUS - E eis que surge um intruso estranho em ano eleitoral.
O coronavírus é capaz de fazer mais estragos na região, nos próximos meses, do que a oposição em tantos anos.
O Governo Regional já percebeu e apressa-se a reunir com o sector do turismo, com medo da agitação.
Se calhar vai dizer, outra vez, que não se preocupem: a SATA há-de voar, mais uma vez, para todo o lado para encher os hotéis de turistas. É este o padrão.
Vasco Cordeiro sabe que vai passar por um período conturbado. É que os eleitores votam com a carteira.
Se a economia arrefecer, a indústria extractiva regional do subsídio constipa-se.
Se repararmos, o Presidente do Governo deve ser o único político deste país que ainda não se pronunciou sobre a crise da epidemia.
Foge disso para conter os danos pessoais e manda avançar a Secretária da Saúde, concentrando nela tudo o que possa correr mal nas enormes trapalhadas em que ela se tem envolvido, com ingénuo brio.
Vasco Cordeiro resguarda-se e se o queremos ver publicamente é apenas em inaugurações, nas Regiões Ultraperiféricas e junto dos velhinhos e criancinhas.
No resto, na verdadeira governação, eclipsou-se.

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INAUGURAÇÃO GELADA - Uma das inaugurações à pressa foi a da Central do Gelo no porto de Rabo de Peixe.
A pressa foi tanta que, dias depois, a central deixou de trabalhar!...
Um verdadeiro episódio do oceano glacial Ártico, à mistura com a época vitoriana de Sherlock Holmes, perseguindo um mistério insolúvel no porto mais rico em clinquer político deste país.
Visto à lupa, o concurso para a construção da central foi lançado em Setembro de 2018, com prazo de entrega das propostas em 22 de Outubro seguinte e abertura das propostas dois dias depois.
O relatório preliminar só foi conhecido a 15 de Janeiro de 2019 (quase 5 meses depois da abertura das propostas, que muita gente estranhou).
Os critério de adjudicação então conhecidos eram: o preço valia 60% da pontuação; o prazo de garantia 20% e o prazo de instalação 10%.
O prazo de instalação inscrito no caderno de encargos era de 100 dias, o que, segundo os conhecedores da área, era manifestamente insuficiente para o trabalho em causa (o que se veio a confirmar).
Quem ganhou o concurso propôs 85 dias e, com isso, obteve a melhor pontuação, apesar de não ter apresentado o melhor preço...
A ironia disto tudo é que a obra durou... um ano!
E, como se não bastasse, poucos dias depois de inaugurada, deixou de trabalhar.
Ou seja: a Lotaçor, (ou melhor, nós todos, contribuintes) pagamos a uma empresa (ainda por cima fora da região) mais 10 mil euros do que a proposta mais barata, para ter um serviço feito em 85 dias, que na verdade ficou pronto em 365 dias…. Uma pequena derrapagem, dirão eles.
E tudo isso é normal, na nomenclatura do sector público regional.
É o que se espera de uma empresa enterrada em dívidas. Tudo normal.
Tão normal e transparente como uma planície de gelo inaugurada à velocidade de um trenó descomandado...

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PROMESSAS ANUAIS - Quando não há nada para inaugurar, anunciam-se outras obras futuras para inaugurar, mesmo que sejam repetidas de há muitos anos.
Vasco Cordeiro foi à Povoação dizer que, em Maio, cinco meses antes dos votos, será lançado o concurso público para a construção da variante às Furnas, um investimento de 5 milhões de euros, que será a primeira fase da intervenção na estrada Furnas-Povoação.
Ora, em Dezembro de 2017, já Ana Cunha tinha declarado que a obra custaria 25 milhões de euros, garantindo que o projecto estava concluído e em fase de estudo de impacto ambiental.
Quase um ano depois, em Outubro de 2018, o Governo Regional volta a anunciar que serão 22,5 milhões de euros para contratualização da concessão das obras de acesso entre Furnas e Povoação, inscrita na proposta do orçamento regional de 2019.
Mais um ano, e em Setembro de 2019 Vasco Cordeiro volta anunciar que o concurso público para a requalificação da estrada entre as Furnas e Povoação seria lançado no início deste ano e que custaria 20 milhões.
E andamos nisto: mais milhão, menos milhão, mais três anos ou menos três anos, as gentes das Furnas e Povoação, pacientes como são, não se importam de esperar mais umas eleições e mais uns anúncios.
Da bruma das caldeiras há-de sair o ansiado D. Sebastião.

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ANÚNCIOS GRACIOSOS - Em Julho de 2018 - vamos para dois anos - o inefável porta-voz Berto Messias anunciou na ilha Graciosa que o Governo Regional autorizou o lançamento do concurso público para a empreitada de construção da nova aerogare do aeródromo da ilha.
Todos à espera.
Agora, quase dois anos depois, Vasco Cordeiro foi à Graciosa anunciar, mais uma vez, que o processo de remodelação da gare está na ANAC para certificação, prevendo-se para breve (mais uma vez) a abertura de concurso público.
Em menos tempo se organiza uma dança do pandeiro no salão da Casa do Povo de Guadalupe...

Março 2020
Osvaldo Cabra