Osvaldo Cabral

Abriu a época dos milagres!




Não, não são as Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, mas coincide, quase todos os anos, por esta altura, quando começam a aparecer os relatórios e contas das empresas públicas regionais, 'fabricados' na Vice-Presidência do Governo Regional.

Este ano, o primeiro a chegar-se à frente foi a famigerada Sinaga.

Através do secretário que mais quilómetros de pastagem tem no mandato, ficamos a saber que a antiga fábrica de açúcar... deu lucro. Aleluia!

Como é que uma empresa totalmente falida, com 35 milhões de euros do nosso bolso enterrados nestes últimos anos, com a laboração encerrada, que recebeu em subsídios até Novembro do ano passado quase 1 milhão e com mais 2 milhões já anunciados para 2019, tem a lata de anunciar lucros?

Já imaginaram o merceeiro da vossa rua fechar a porta da loja, porque tem uma dívida astronómica na banca, na segurança social e na autoridade aduaneira, dedicar-se a empacotar palha, receber avultados subsídios públicos por isso, chegar ao fim do ano, abrir a loja e anunciar todo convencido que teve lucro?!

A adocicada engenharia contabilística deste governo empacota-nos a todos no rótulo de atrasados mentais.

Vender a ideia, errada, de que esta empresa está em franca recuperação porque, imagine-se, os resultados são agora positivos em 68 mil euros, depois de há cinco anos serem negativos em 2,5 milhões de euros, numa extraordinária redução de prejuízos de 203%, que é equivalente a dizer que se eliminou o défice de 2,5 milhões de euros, é cobrir-nos a todos de ridículo pelo enorme insulto à inteligência dos açorianos.

O problema da Sinaga está nos enormes encargos com a dívida acumulada ao longo de vários anos, que não há maneira de ser amortizada, porque pura e simplesmente não há condições de venda do património residual por valores sequer próximos dos da dívida.

Mais, a Sinaga de hoje não tem nada a ver com a Sinaga de outrora.

A Sinaga que os açorianos conheciam era uma refinadora de beterraba e ramas.

A Sinaga de hoje é uma empacotadora, ineficiente, de açúcar importado a granel.

Não transforma nada e só produz saquetas com açúcar importado, necessitando para o efeito de subsídios avultados.

O valor acrescentado deste processo é claramente negativo.

Esta notícia é um retrato exemplar de como estamos a ser governados, num tempo político incontornável em que os 'factos alternativos' fazem o seu caminho sem escolher ideologias.

O poder absoluto, que vemos noutras sociedades populistas, tem este condão de criar uma realidade completamente diferente daquela em que vivemos ou sentimos.

Quando os políticos se afastam da inevitabilidade racional que ainda paira no cérebro de muitos eleitores, é a democracia e o sistema que sofrem.

Não admira que ninguém acredite, hoje em dia, na política e nos políticos.

São eles que cavam o próprio fosso com este comportamento inócuo, que assusta qualquer cidadão contribuinte.

A ligeireza com que se anunciam certas coisas, como este milagroso multiplicar de pães - no caso saquetas de açúcar - é apenas um dos sinais de corrosão do discurso e da acção política que vão dando cabo da seriedade regional.

Atrás da Sinaga - tomem nota - vão surgir outras.

É certo, como dia de bom tempo no domingo do Senhor dos Milagres, que outras empresas na mesma situação vão anunciar mais milagres financeiros.

Ponham o homem no andor e dêem a volta ao Campo de S. Francisco...


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SEM MILAGRES - Aliás, este governo, como vem revelando há muito tempo, não lida bem com os números.

O Serviço Regional de Estatística acaba de anunciar que o PIB dos Açores ficou-se nos 2,3% no ano passado e Vasco Cordeiro apressou-se a autoelogiar o governo com o "crescimento acima dos dois por cento", destacando o mérito "das políticas públicas implementadas na Região".

Esqueceu-se de dizer que é um valor abaixo do PIB de 2017 (2,4%), o que é mau sinal.

Mais: é a confirmação da redução gradual do crescimento real do PIB nos últimos anos.

E quanto às "políticas públicas" implementadas por este governo, é procurá-las como agulha num palheiro.

A não ser que o Presidente do Governo se refira à imensa rede pública falida, como a SATA, ATA, Sinaga, Santa Catarina, Espada Pescas, Lotaçor, Saudaçor e por aí fora...

O desempenho deste governo não é exemplo para ninguém.

E a confirmação do descalabro veio ontem mesmo, através do INE, com a revelação de que o défice dos Açores (ao contrário do país e da Madeira) agravou-se no ano passado em 74,1 milhões de euros, atingindo os 126 milhões, devido a uma garantia dada à SATA.

Ou seja, a factura já está a chegar aos nossos bolsos, graças ao tal "mérito das políticas públicas", faltando ainda o que está para vir das outras empresas e de novos empréstimos que a SATA vai ter que contrair.

A dívida pública também subiu em flecha, passando agora de 1.690,04 milhões para 1.859 milhões.

Lá se vai o superavit... que agora passou para a Madeira.

Como já foi prognosticado por outros, não tarda nada e temos de ir ao resgate.

A dívida sobre o PIB já está em 43%, o que quer dizer que grão a grão vai o governo regional enchendo o papo do endividamento, enquanto a Madeira já acertou o passo.

E agora?

Vão tirar o homem do andor?








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O MILAGREIRO - Rui Rio chegou ao PSD como o santo milagreiro que ia salvar o partido.

A poucos meses das eleições legislativas nacionais, o PSD está a 12 pontos de distância do PS, segundo as últimas sondagens, arriscando-se mesmo a obter o pior resultado de sempre da sua história.

O pobre do homem é mesmo dos políticos mais impopulares em todos os barómetros, sendo mesmo, imagine-se, o que recolhe menos simpatia entre os apoiantes do próprio partido!

Um líder que vale apenas isso, não é fortuna nenhuma...


Março 2019

Osvaldo Cabral