Osvaldo Cabral

Aí está nova trapalhada



Já todos estranhávamos o breve interregno das trapalhadas deste governo.
Por várias vezes aqui vos contei que, sempre que a coligação anuncia uma boa medida, é sinal de que, a seguir, vem borrasca.
Aconteceu quase uma dúzia de vezes, desde que Bolieiro tomou posse, pelo que não surpreende o surgimento de mais uma ou duas, para os próximos dias, depois do anúncio da boa iniciativa sobre o programa “Novos Idosos” na semana passada e, esta semana, o novo programa de apoio ao turismo para contratação de pessoal.
A trapalhada que se segue tem mesmo a ver com turismo.
O Gestor do Programa Operacional para os Açores 2020, Nuno Melo Alves, elaborou um “Aviso” para apresentação de candidaturas, na modalidade de “Convite”, destinado à Câmara do Comércio de Angra do Heroísmo (CCAH), com vista a desenvolver um programa “pelo reforço da oferta turística focada na História, Cultura e Gastronomia, bem como na excelência do destino, visando aumentar a notoriedade do destino e os fluxos turísticos e, consequentemente, contribuir para o aumento das exportações (via atividade do turismo) e do saldo da balança comercial, bem como alavancar todas as atividades que são transversais ao setor do turismo”.
Para tal, são atribuídos à Câmara de Comércio de Angra 734 mil euros, para apoiar tipologias que “passam por campanhas de promoção e marketing, dirigidas ao mercado emissor da América do Norte, com ênfase na comunicação em Nova Iorque e Montreal, mercado de origem dos voos”.
Trata-se de uma excelente iniciativa por parte da Câmara do Comércio de Angra, que está a fazer um bom papel na tentativa de atrair turistas para a Terceira, conseguindo, com esta verba, pagar as campanhas de Montreal e Nova Iorque, operadas pela SATA.
O problema não está na Câmara do Comércio, que está a fazer o seu papel.
A questão que se vai levantar (já está nos bastidores da coligação) é se as outras Câmaras do Comércio têm conhecimento desta iniciativa do governo e se este tipo de candidatura vai ser apresentado a outras ilhas que têm gateways, estendendo-se semelhante “Convite” às associações empresariais de Ponta Delgada, Horta, Pico e Santa Maria, a fim de beneficiarem de igual apoio financeiro, a fundo perdido, com vista a promoverem rotas turísticas para as suas ilhas.
Pelo que conseguimos saber, esta iniciativa do governo é desconhecida nas outras ilhas e até deixou alguns boquiabertos...
Outra questão que se levanta, é saber por que razão estes apoios para rotas turísticas são feitos pelo governo e não pela ATA.
A ATA, afinal, morreu para o governo?
A escolha das promoções da região vai passar a ser feita pelo governo?
E, ainda, outra questão: não tinham dito que essas rotas não davam prejuízo? Para que precisam de apoio?
Então acabam com a rota Montreal-Ponta Delgada, que não recebia apoio algum, e “desviam-na” para outra ilha com apoio de dinheiros públicos?
Mais grave: Bruxelas sabe disto?
A propensão deste governo para escolher filhos e enteados (como nas Agendas Mobilizadoras), vai dar molho e a única hipótese, agora, da coligação se livrar da avalanche de críticas que aí vem, é alargar o critério às outras ilhas, convidando, também, as associações empresariais a apresentarem propostas semelhantes para atraírem rotas turísticas para as suas ilhas, sendo coerente com o que escreve no convite à Câmara de Comércio de Angra, onde afirma que “o destino Açores deve ser promovido como um todo, salientando a riqueza da sua oferta pelas particularidades e produtos turísticos de cada ilha, numa lógica de alavancar a notoriedade do destino nos mercados internacionais com potencial de crescimento”.
Pico, Faial e Santa Maria não têm riqueza suficiente “numa lógica de alavancar a notoriedade do destino”?
Façam lá o “Convite” a cada uma delas e arranjem mais uns milhares no Programa 2020 para a promoção de rotas turísticas “nos mercados internacionais com potencial de crescimento”.
Caso contrário, vamos assistir a mais uma tempestade política.
Pelo sim pelo não, já comprei as pipocas.

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AS OSP QUE DÃO PREJUíZO - Durante muito tempo andou meio mundo a discutir quais as OSP (Obrigações de Serviço Público no transporte aéreo) que davam mais prejuízo e até havia quem apostasse que algumas delas davam lucro.
Pois bem: consegui os números (finalmente!).
Todas dão prejuízo (umas mais do que outras), no valor global de 12,7 milhões de euros (valor de 2019, antes da pandemia).
A rota Lisboa-Horta é responsável em 50% dos prejuízos (6,6 milhões de euros), Lisboa-Pico 25% (3,1 milhões de euros), Lisboa-Santa Maria 20% (2,4 milhões de euros) e Ponta Delgada-Funchal 5% (0,6 milhões de euros).
O Governo da República, que se arrepiou inicialmente quando viu estes números, já se convenceu que vai continuar a assegurar estas obrigações.
Resta saber se vai pagar a tempo, porque o histórico, lá como cá, é de longa espera, coisa que a “nova” SATA, em modo de reestruturação, não poderá continuar a assumir.

Junho 2022
Osvaldo Cabral